MOBY DICK

           Apesar de Moby Dick ter se tornado uma história muito famosa, conhecemos pouco sobre seu autor, o escritor americano, Herman Melville, por que na verdade, Melville provocou um verdadeiro escândalo em vida, o que fez com que seus livros ficassem esquecidos por mais de 40 anos. Que escândalo foi esse? É isso que nós vamos descobrir.

            Vamos começar falando um pouco sobre Melville que nasceu no começo do século XIX, em 1819, em Nova York. Ele era órfão de pai e teve uma infância muito pobre e difícil. Tentou fazer fortuna de várias formas e não conseguiu. Assim, em 1841, ele embarca no navio baleeiro chamado Acushnet, rumo aos mares do Sul. Quase um ano depois, ele resolve desembarcar com um amigo nas Ilhas Marquesas, que ficam na Polinésia Francesa, perto do Tahiti.

          Quando eles desembarcaram, foram capturados pelos taipis que tinham fama de serem canibais, mas que os trataram com bastante hospitalidade. E essa aventura originou os primeiros livros do escritor chamados Typee e Omoo. Os dois livros, apesar de já mostrar o poder da narrativa de Melville, não tiveram grande sucesso. Neles, o escritor, mesmo sem nunca ter lido Rousseau, vai chegar à mesma conclusão sobre o selvagem, ou seja, de que ele é puro e bom e é a civilização que o corrompe.

             Melville continuou escrevendo e publicando seus romances até que em 1852 ele escreve um romance chamado Pierre, no qual ele confessa seu amor incestuoso por sua irmã. Bem, é possível imaginar, em pleno século XIX, o escândalo que foi essa revelação que acabou por enterrar o pouco sucesso que ele ainda tinha. Entretanto, Melville não desistiu e continuou escrevendo. É logo depois deste fato, que ele escreve Moby Dick, livro no qual ele iria utilizar toda a experiência adquirida quando esteve a bordo do baleeiro. Melville  ainda vai escrever um livro de contos muito bom chamado Contos de Piazza e o romance O vigarista, mas, obviamente, nenhum deles alcançou qualquer sucesso.

          Como eu disse antes, só depois de 40 anos é que os livros de Melville foram redescobertos. Então, vamos falar sobre sua obra mais famosa, que é Moby Dick e vamos entender por que Moby Dick não é apenas a história de uma baleia branca.

            O livro começa de uma forma muito curiosa. Começa com a etimologia da palavra baleia, em inglês Whale, e o autor se utilizando de definições de dicionários para explicar que a palavra vem diretamente do holandês, dinamarquês e sueco. E depois, ainda coloca sua tradução em diversas línguas. Em seguida, há uma espécie de prefácio em que ele se diz um sub-sub- bibliotecário que recolheu várias referências a baleias e diz que essas dez páginas cheias de referências é só para mostrar como se tem fantasiado a respeito de Leviatã, que é uma citação do livro de Jó. Mas o leviatã citado na bíblia não necessariamente é uma baleia. O que se sabe é que era um monstro marinho e que pode ser apenas mitológico.

          Só depois das citações é que a história realmente começa. Um narrador chamado Ismael conta que é um marinheiro e que vai tomar parte da tripulação de um navio baleeiro porque ele tinha uma enorme curiosidade sobre baleias. Ele sai de Nova York, exatamente como o escritor Melville, e chega em New Bedford, onde vai ter de dormir uma noite antes de poder embarcar para o porto que ele desejava. Nessa noite em New Bedford, ele dorme em uma estalagem chamada A Estalagem da Baleia e como a estalagem está cheia, ele tem de dividir, não apenas o quarto mas a cama com um arpoador chamado Quiqueg, um tipo muito estranho, um pouco selvagem.

          Tanto Ismael como Quiqueg vão embarcar no baleeiro Pequod, cujo capitão chamado Ahab tinha um ódio mortal de Moby Dick porque ela havia lhe arrancado uma perna. Ahab não quer caçar qualquer baleia e sim Moby Dick. O Ahab é um pouco insano na sua perseguição por Moby Dick, o que acaba por deixar o primeiro intendente do navio, chamado Starbuck, constantemente preocupado com as ordens de navegação que Ahab dava.

          Em busca da baleia, eles vão enfrentar diversos desafios. Por fim, já no Oceano Pacífico, Ahab resolve seguir uma rota perigosa com muitas tempestades na esperança de alcançar Moby Dick. Obviamente, eu não vou contar o fim da história, mas quero chamar sua atenção para o que fez com esse livro fosse considerado um dos livros mais importantes de todos os tempos.

           Além da sua própria experiência, Melville também usou fatos reais como o ataque ao navio baleeiro Essex, que foi atacado e afundado por uma baleia cachalote. Também o nome de sua baleia foi inspirado em uma baleia real, chamada Mocha Dick que era branca e agressiva como Moby Dick. Mocha recebeu esse nome porque era encontrada frequentemente perto da Ilha Mocha, na costa do Chile.  Melville fez uma narrativa então que é sólida, alicerçada nos conhecimentos de alguém que conhecia muito bem a rotina de um navio baleeiro.

         Uma outra característica da narrativa é que constantemente o autor está fazendo citações bíblicas ou referências a citações bíblicas, como se a baleia, a força da natureza que está nos animais nos remetesse à criação, à força da criação, e à eterna disputa entre o homem e a natureza. Alguns nomes dos personagens também são bíblicos. O início do romance, logo a primeira frase ficou famosa quando o narrador diz, abrindo o romance: Chamai-me Ismael. Na bíblia, Ismael era o filho de Abrão, que quase morreu no deserto e foi socorrido pelo senhor. Um pouco parecido com a história do personagem Ismael em Moby Dick.

          Moby Dick é um romance extenso com mais de seiscentas páginas. Muitas vezes, Melville se perde em digressões, fica falando sobre algo por páginas e páginas. Quer um exemplo? Ele usa um capítulo inteiro para falar da brancura da baleia e se arrasta falando da brancura de muitas outras coisas.  A meu ver, poderia ser um pouco mais enxuto, mas, ainda assim é uma grande obra, típica em muitos sentidos do século XIX para um leitor acostumado a textos extensos.

           Por isso, é preciso ler Moby Dick sem ansiedade.