O AMANTE

          A escritora francesa Marguerite Duras, já com idade bastante avançada, 70 anos, resolveu contar um pouco da história da sua vida, principalmente, a passagem em que ela ainda adolescente e morando em Saigon, onde nasceu, conhece e se torna amante de um homem mais velho, um chinês, filho de um rico comerciante.

          Essa história deu origem ao livro “O Amante”. Logo no começo, ela diz que já escreveu sobre sua família, mas que agora era diferente porque estavam todos mortos, o que nos leva a crer que, naquele momento, ela se tornava mais livre para contar sua história.

        Então esse livro tem dois ingredientes muito interessantes para uma trama: o primeiro é saber que, mesmo com uma boa dose de ficção, a história é verdadeira. E o segundo ingrediente é a oportunidade para tentar compreender a escritora, suas origens, suas experiências e que vão, com certeza, estar presentes em sua escrita. Sempre defendo que um escritor é uma pessoa como qualquer outra e que, ao escrever, mesmo sendo uma história completamente ficcional, seus desejos, suas convicções, suas mágoas aparecem nos seus mais diversos personagens. Nesse livro, várias vezes Marguerite, apesar de ter apenas 15 anos, já revela que queria escrever livros.

         Quando a história começa, o pai de Marguerite já havia morrido e a família enfrentava a pobreza. A mãe investiu o pouco dinheiro que eles tinham em terras que não podiam produzir porque ficavam grande parte do ano alagadas, ou seja, ela tinha feito um péssimo negócio.

          Eles eram em três irmãos. Um irmão mais velho, Marguerite no meio e um irmão caçula. A mãe que era professora queria que a filha terminasse o secundário e depois fizesse uma licenciatura em matemática para se tornar professora como ela. No momento da história, sua mãe trabalha como diretora de uma escola para moças em Sadec, mas Marguerite estuda no Liceu Francês em Saigon, o que a obriga a pegar a balsa quando tem de retornar de casa para o Liceu depois das férias.

         É nessa travessia de balsa sobre o rio Mekong, vestida de uma forma muito diferente seja para sua idade, seja para ir ao colégio, com vestido de seda quase transparente, muito decotado, sapato dourado enfeitado com lantejoulas, chapéu de homem e maquiada, que Marguerite chama a atenção de um homem.  Nesse dia, na balsa, ela conhece o Chinês, dono da limusine preta, carro que vai aparecer em vários livros da autora.

           Ela é branca e, naquela época, brancos não se relacionavam com chineses que não eram considerados brancos e vice-versa. Assim eles começam a se encontrar em um pequeno apartamento no centro da cidade. Marguerite se relaciona com ele por curiosidade, por querer ter uma vida sexual e, principalmente, por dinheiro. Ela se prostitui por vontade própria para levar dinheiro para casa. Seu amante se apaixona por ela, mas sabe que a relação é sem futuro, pois seu pai jamais consentiria que ele se casasse com uma mulher branca.

          Essa relação dura bastante tempo, mas o mais importante é como Marguerite Duras aproveita essa história para contar da relação intensa com a sua mãe e com seus irmãos. Seu irmão mais velho sempre dava um jeito de extorquir dinheiro da mãe e arruinar ainda mais a família, enquanto o caçula sempre aparecia como vítima.

         É um livro curto, rápido de ler e que trabalha com a temporalidade de forma muito entremeada. O que eu quero dizer com isso? Não é um capítulo no presente e outro no passado, como é o mais habitual quando se alterna tempos diferentes. Ela mistura tudo e repete o que é importante várias vezes para que não passe despercebido ao leitor. Ela direciona o nosso olhar para o que é importante.

        Marguerite Duras foi uma das mais importantes escritoras do século XX na Europa e O Amante, sua obra mais conhecida.

Vídeo- resenha: https://www.youtube.com/watch?v=wSOSdGxGG4k

FICHA TÉCNICA

Título Original – L’ amant

Edição Original – 1984

Edição utilizada nessa resenha – 1995

Editora Record – Rio de Janeiro

Número de páginas – 127