O BURACO

 

          Tem dias que há um grande buraco. Ele aparece assim do nada e é nada. Não posso andar. Ele se estende com sua boca enorme esperando um deslize, um pé em falso. Olho pra dentro e não vejo o fundo. Fico imóvel esperando um caminhão de terra ou de cimento, mas nada vem. Nem ninguém.

          Não era pra ser nada disso. Ia falar de pieguice, mas aí apareceu o buraco e quase caí. Ainda agora o pensamento vaga desolado. Não quero lhe assustar, mas, às vezes, o buraco dura dias e só aumenta. Esse pensamento é novo. Não está acostumado. Não sabe de nada.

         Grito bem na boca do buraco. Não ecoa. Nem o eco quer a minha companhia. Certo o eco. Não perde tempo repetindo o que não foi feito para repetir. Só serve para o buraco, para cair no buraco e se perder no buraco. Sem volta.

          Em volta do buraco é frio. O vento gélido vem de dentro, do fundo que não dá pra ver e bate no rosto. Não dá pra evitar. Bate, bate até o rosto ficar vermelho de dor e de vergonha. Aguardo. Respiro fundo. Escorrego as mãos cansadas.

 

                                                           São Paulo, 23/10/2018