O CONTO DA AIA

          O Conto da Aia é um livro antigo, de 1985, que parece ter sido redescoberto, em virtude da série The Handmaid’s Tale, nome original do romance, ter sido lançada em 2017 e obtido grande sucesso. A série chegou ao Brasil em março de 2018, através do canal Paramount. Temos a primeira temporada com dez episódios, mas, ao que tudo indica, as negociações para a segunda temporada também já estão bem adiantadas.

          Aliás, esse é um romance que rende adaptações. Além da série atual, já foi transformado em filme em 1990 e em uma ópera em 2000.

          Da escritora canadense Margaret Atwood, é muito comum as críticas ao livro começarem classificando o romance como sendo distópico. E o que isso significa? Distopia é exatamente o contrário de utopia. Utopia é um lugar perfeito, em que as condições de vida são perfeitas, já distopia é um lugar em que as condições de vida são totalmente adversas, chegando a ser desesperadoras.

          A história se passa na República de Gileade, antigos Estados Unidos, que sofreram um golpe e se tornaram um regime totalitário fundamentalista, no qual a liberdade dos indivíduos é completamente retirada e as mulheres são ainda mais prejudicadas, não tendo mais direito a ter conta bancária e até mesmo a ler qualquer coisa.

          A narradora e também personagem principal, assim como todas as aias, é obrigada a mudar de nome e vai servir na casa de um comandante que é um alto funcionário do governo, não para ser uma empregada de serviços domésticos como se poderia imaginar pelo nome do livro, mas uma serva sexual com a finalidade única de dar um filho ao comandante, de procriar. Os novos nomes das aias eram formados pela preposição “de” (of em inglês) que significa pertencimento, mais o prenome do comandante de cada uma. Assim, a nossa personagem chama-se Offred, of + Fred.

          As aias se tornaram necessárias durante o regime Gileadano em virtude das taxas de natalidade estarem muito baixas e porque vários comandantes foram expostos a uma radiação que os tornava estéreis, o que complica a missão das aias que caem em desgraça se não engravidar. É um ritual de acasalamento sem qualquer emoção, que lembra um estupro com a presença das esposas. No caso de Offred, Serena Joy, a mulher do comandante, ficava sentada atrás dela e segurava a sua mão durante todo o ato sexual.

          Offred, no período anterior a esse regime tinha uma marido e uma filhinha e ela não sabe o que aconteceu com eles. Eles podem ter morrido, escapado, enfim, nunca mais ela soube qualquer coisa a respeito deles. E, justamente por ela ainda ser jovem e já ter tido uma filha, ela foi escolhida para ser aia, para procriar.

          O romance tem um clima de tensão. A gente nunca sabe o que vai acontecer com Offred e como ela é uma personagem que se arrisca, que faz coisas que não são permitidas pelo novo sistema, como leitores, ficamos apreensivos de que algo de ruim vá lhe acontecer.

          A autora Margaret Atwood disse que há livros que surpreendem o leitor e há livros como O Conto da Aia, que surpreendem o autor. Ela se diz surpreendida pelo enorme sucesso que o livro vem fazendo desde o seu lançamento há mais de 30 anos.

          O final do livro também é surpreendente. Ele termina como uma espécie de epílogo que trata a história da aia de forma acadêmica. É uma palestra de um tal de Professor Pieixoto revelando que a história que acabamos de ler foi encontrada em forma de trinta fitas cassetes, muitos e muitos anos depois dela ter ocorrido. A palestra explica melhor algumas passagens do livro, mas seu grande mérito é a originalidade de Margaret Altwood em terminar assim a sua história.

Vídeo-resenha: https://www.youtube.com/watch?v=3cYQxo-QC5k

FICHA TÉCNICA

Título Original: The Handmaid’s Tale

Edição Original: 1985

Edição utilizada nessa resenha: 2017