O CORTIÇO

            A edição de O Cortiço de Aluísio Azevedo feita pelo Ateliê Editorial tem algo importante em uma leitura de mais de um século: notas explicativas. Elas são bastante úteis, pois, há vários termos e expressões que caíram em desuso e são praticamente incompreensíveis hoje, no século XXI. Um exemplo de expressão em desuso e que aparece no romance: “na cepa torta”. A expressão significa “na mesma situação”. E, como essa, há varias que tornam as notas explicativas imprescindíveis para uma boa leitura.

           O Cortiço, publicado em 1890, é uma obra de grande importância porque é uma das primeiras obras naturalistas. Ao contrário do romantismo em que personagens e cenários são idealizados, como se houvesse um verniz para deixar tudo mais bonito, o naturalismo tenta retratar com fidelidade o cenário, os personagens e os fatos e mostrar como o ambiente influencia as pessoas. Aluísio Azevedo já havia escrito, anteriormente, O Mulato, em 1881, obra que é considerada o primeiro romance naturalista.

          A história de O Cortiço é ambientada no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, no final do século XIX. E cortiço era o apelido de uma casa de cômodos, uma habitação barata para pessoas de baixa renda, que tanto podia ser feitas de apenas um quarto ou de pequenas casinhas no mesmo terreno, como era na história.

             O primeiro capítulo do livro é a apresentação do português João Romão, de como ele construiu a sua fortuna e é também a apresentação de como o cortiço se formou. O cortiço, mais do que um cenário onde a ação se passa, é, praticamente, um personagem, tal a sua importância no livro. É comum, inclusive, Aluísio Azevedo usar a personificação em várias passagens, dando ao cortiço características humanas. Por exemplo, no início do capítulo três encontramos a frase. o cortiço acordava.... é claro que não era o cortiço que acordava, mas as pessoas que ali moravam.

            O segundo capítulo é a apresentação da dinâmica da casa de outro português, o Miranda, que se muda para um sobrado ao lado do cortiço. Na casa moram, além do Miranda, a sua mulher, Estela, sua filha Zulmira e os agregados da casa, o estudante Henrique de 15 anos e o velho Botelho que é um parasita que vive ali de favor. Miranda havia se mudado para Botafogo na esperança de ficar longe dos comentários sobre sua mulher que, constantemente, se envolve com outros homens. A mudança não surtiu efeito porque Estela vai se envolver com o jovem Henrique.

            Logo no início da trama, não há qualquer simpatia entre os dois portugueses: João Romão e Miranda. João Romão é pobre, veste-se mal, trabalha servindo as mesas na sua averna, que fica na frente do cortiço, enquanto o Miranda é um comerciante bem-sucedido, bem-educado, que se veste com aprumo e frequenta lugares sofisticados do Rio de Janeiro.

       João Romão só conseguiu prosperar nos negócios porque contou com as economias e a ajuda de Bertoleza, uma negra escrava, que se tornou sua amante e sua companheira incansável nos negócios, trabalhando de domingo a domingo. Ele engana Bertoleza dizendo que comprou a sua carta de alforria, mas, na verdade, não o fez.

          O cortiço, além das casinhas, também tinha as tinas para se lavar roupas, o que o tornava uma moradia bastante procurada por lavadeiras. O local vivia em relativa harmonia e abrigava brasileiros, portugueses e italianos, todos de baixa renda. Rita Baiana é a personagem central do cortiço e namora o Firmo, um mulato mestre de capoeira. A descrição que Aluísio faz dele é a imagem do mulato carioca, que usa chapéu, fuma charuto, é chegado em música e roda de samba muito mais do que em trabalhar. Já a Rita é a mulata sensual que encanta a todos com sua dança.

          O cortiço vai seguindo sua rotina com as lavadeiras trabalhando nas tinas, os homens na pedreira que havia no fundo do cortiço ou em outra atividade qualquer, mas, no domingo, todos descansavam ou se divertiam. Era o momento em que havia a mistura do fado português, das modinhas brasileiras, das comidas e das culturas diversas.

           Essa rotina começa a se alterar com a chegada de Jerônimo e sua família. Ele era um português sério, trabalhador, que vinha ocupar um cargo de chefia na pedreira. O problema é que Jerônimo se apaixona perdidamente por Rita e começa a mudar. Aluísio diz que ele se "abrasileirou". E é interessante como não é apenas a troca do vinho pela caninha, do bacalhau pela carne-seca, e de tantos outros costumes nacionais, mas, principalmente, foi deixando de ser tão sério, não apenas na música, mas no trabalho. Tornou-se mais indolente e só pensava em Rita Baiana. É a influência do meio de que falamos antes como uma das marcas do naturalismo.

          Firmo percebe o interesse de Jerônimo por Rita Baiana e os dois homens se desentendem. Acabam tendo uma luta violenta, Jerônimo apanha bastante e vai parar no hospital, mas, assim que tem alta, vinga-se matando Firmo a pauladas. O português Jerônimo abandona a esposa e vai morar com Rita Baiana, mas entra em decadência, bebendo cada vez mais, assim como Piedade, sua antiga esposa.

           Há também no romance, claramente identificável, o preconceito da época que colocava os brancos portugueses como trabalhadores bem-sucedidos e os negros ou mulatos como Firmo e Rita Baiana como uma raça subalterna, desvalorizada. Jerônimo se degrada quando se “abrasileira”.

           Enquanto isso, João Romão enriquece e começa a querer ficar parecido com seu vizinho Miranda. Passa a se vestir melhor, frequentar lugares sofisticados e até constrói um sobrado maior do que o do Miranda. Incentivado por Botelho, que ganha dinheiro para ajudá-lo, João Romão pretende se casar com Zulmira, mas, tem de dar um sumiço em Bertoleza. Sem saber como fazer isso, ele escreve para seus antigos donos, para vir buscá-la. Bertoleza se recusa a voltar a ser escrava e se mata.

      A decadência atinge também outros moradores do cortiço. É o caso de Pombinha, moça culta que aguardava a primeira menstruação para se casar. Seduzida pela prostituta Léonie, abandona o marido e vai viver com a amante, prostituindo-se também. Há, no livro, uma cena de homossexualismo entre as duas mulheres, uma das primeiras da literatura brasileira. Essa é a importância de um livro como O Cortiço que consegue retratar  com fidelidade muitos aspectos que aconteciam na sociedade da época, mas que, até então, não eram descritos nos romances.

Vídeo-resenha:  https://youtu.be/C-52qk5ZsPA

FICHA TÉCNICA

Título Original – O Cortiço

Edição Original – 1890

Edição utilizada nessa resenha – 2012

Ateliê Editorial - Cotia

Número de páginas – 288