O ENCONTRO MARCADO

          O livro O Encontro Marcado, de Fernando Sabino, é uma escolha no sentido de alargar os horizontes dos leitores para a questão da escrita. Por quê? Porque ele tem uma narrativa muito diferente. E essa é apenas uma das razões porque O Encontro Marcado merece ser lido e estudado.

          Primeiro vamos entender quem foi o escritor e jornalista mineiro Fernando Sabino. Sabino começou a escrever contos e crônicas ainda muito cedo, por volta dos doze anos. Seu primeiro livro de contos saiu em 1941 e chamava-se Os Grilos não Cantam Mais, quando ele tinha apenas 19 anos. Começou então a trabalhar com jornalismo colaborando em diversos jornais, ou como cronista ou como correspondente, quando morou fora do Brasil.

          O Encontro Marcado é seu primeiro romance e muito inspirado em sua própria vida. É a história de um jovem mineiro que busca se tornar escritor. Então se você escreve, eu recomendo fortemente que você leia esse livro porque Sabino consegue colocar no papel todas as inseguranças de quem deseja ser escritor. Por que, como eu sempre digo, o escritor não tem um patrão, não tem alguém lhe obrigando a escrever diariamente, depende só da pessoa querer muito e ter confiança de que tem algum talento. Precisa de muita disciplina. Além disso, é muito difícil sobreviver apenas com literatura, em um país que lê tão pouco como o Brasil.

          O personagem principal de O Encontro Marcado chama-se Eduardo Marciano, e eu gosto de imaginar que o sobrenome "Marciano" seja uma escolha proposital para mostrar que o jovem não se encaixava nesse mundo. Quando criança era desobediente e mimado. Desde muito jovem, ele estava sempre buscando algo que nem ele mesmo saberia dizer o que era. Se dizia escritor, mas não escrevia. Tinha uma sede de viver a vida com tanta pressa que estava sempre angustiado.

            Eduardo tinha dois grandes amigos, Hugo e Mauro, que também queriam ser escritores e o acompanham nas aventuras, quase arruaças pela capital mineira. Um dado interessante é que Sabino usou o seu próprio grupo de amigos para se inspirar. Aos 20 anos, em Belo Horizonte, ele tinha um grupo literário formado por nomes que depois também viriam a ser importantes nas letras como Otto Lara Rezende, Helio Pelegrino, Paulo Mendes Campos e Wilson Figueiredo. É fácil imaginar o que é fazer parte na juventude de um grupo como esse,, não só porque todos fizeram sucesso, mas porque devia ser muito bom ter tantas cabeças geniais para se trocar ideias, e para se inspirar.

          Como Sabino, o personagem Eduardo também foi campeão de natação e como Sabino também se casou muito jovem com a filha de um importante político. O livro é dividido em duas partes: a primeira chama-se A Procura e a segunda: O Encontro. Parece-me que aqui o escritor foi explícito demais. Não precisava. Mas o que eu quero chamar a sua atenção, e a que me referi lá no começo, é como Fernando Sabino estruturou a sua escrita. Ela é quase toda feita de diálogos, de discurso direto. Obviamente, não é como uma peça de teatro porque tem um narrador em terceira pessoa, mas esse narrador entra apenas em momentos cruciais para costurar a narrativa.

          Eu não me lembro de nenhum outro romance que tenha essa predominância tão grande do discurso direto, e a consequência de utilizar esse tipo de estrutura, é que ela dá muita agilidade ao romance. É como se nós entrássemos na pressa, na avidez de Eduardo Marciano em viver a vida. Além disso, todos os personagens ganham mais importância quando todos têm voz, o que também torna muito interessante esse tipo de narrativa.

          Outra coisa que eu considero muitíssimo relevante nesse romance são as citações. A maioria delas, claro, se refere a escritores e à literatura. Eu poderia citar várias, mas as que eu mais gosto são:

          - Não escorregue, caia de uma vez. Os medíocres apenas escorregam. Os bons quebram a cabeça. Se referindo claro a não ter medo de perder, de errar.

      Ou então: Na Literatura, como na natureza, nada se cria e nada se perde: tudo se transforma.

       E, não apenas para escritores mas para qualquer profissão, aproveite esse conselho de Fernando Sabino, ou de seu personagem Eduardo Mariano que diz ser preciso:

          - Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.

          Sabino foi muito festejado e ficou muito popular nos anos 70 e 80, mas agora anda meio esquecido. Acho que está na hora de relermos e recomendarmos seus livros.