O PEQUENO PRÍNCIPE

          Primeiro, eu quero dizer que, apesar de ser considerado um livro infantil, ou infanto-juvenil, não é um livro para crianças. Uma criança não vai conseguir alcançar todas as mensagens que o livro traz, mesmo o protagonista, o personagem principal, sendo uma criança.

          A história é bem conhecida. Trata-se de um piloto que enfrenta uma pane em seu avião e cai no deserto. Ele sobrevive e encontra uma criança. Na verdade, essa criança é um príncipe que deixou seu planeta e que está viajando pelos mundos para conhecer o universo. O piloto e o pequeno príncipe vão ter inúmeras conversas e começam a se tornar amigos.

         O escritor baseou sua história em um acidente real. Ele era um piloto de avião e também teve uma queda ficando dias no deserto do Saara. Só que na história real, ele não estava sozinho, mas acompanhado de seu copiloto. Saint-Exupéry fazia tanto essa rota sobre o deserto que os Mouros lhe deram o apelido de Senhor das Areias.

         A história começa com o piloto que queria ser desenhista, lembrando das vezes que tentou desenhar quando criança, mas ninguém conseguia identificar seus desenhos. Desenhou uma serpente e as pessoas pensaram que era um chapéu. Por isso desistiu e se tornou piloto. Logo na primeira noite no deserto, depois do acidente, o aviador é acordado de madrugada por uma criança vestida estranhamente. E o que essa criança quer? Que o aviador lhe desenhe um carneiro.

          E esse já é o primeiro exemplo do uso do simbolismo. Ao invocar uma incapacidade do aviador, que era desenhar, e que ele por não conseguir havia desistido até da carreira, o autor já quer mostrar como desistimos facilmente seja daquilo que é um pouco mais difícil, seja dos nossos sonhos. Ao pedir para o aviador fazer aquilo que lhe era mais difícil, o que o pequeno príncipe quer é que ele tenha coragem para tentar novamente. Além disso, o pequeno príncipe foi o único que soube reconhecer a serpente com o elefante dentro que o aviador havia desenhado quando pequeno.

          Como o desenho do carneiro nunca estava bom o suficiente para o menino, o aviador desenhou uma caixa e disse a ele que o carneiro estava lá dentro e para sua surpresa o pequeno príncipe conseguiu imaginar e adorou. Aí já está o invisível aos olhos, expressão que também tornou esse livro tão famoso.

            Com essa narrativa tão recheada de subjetividade e de simbolismo, o que vai acontecer é que cada leitor vai interpretar do seu jeito e talvez seja essa uma das razões do sucesso de mais de 70 anos do livro. A história emociona e toca o sentimento de cada leitor de uma forma diferente.

          O pequeno príncipe conta ao aviador a sua viagem antes de chegar à Terra e, em cada planeta por que passou, como ele foi encontrando seres que conhecemos bem, como o rei, o comerciante, o acadêmico, o bêbado e através de diálogos curtos com perguntas e observações que só as crianças têm a coragem de fazer, nós vamos percebendo como cada um desses personagens perde algo da vida por dar valor a coisas que não têm tanto valor assim.

          Claro que a passagem mais famosa e também a que eu mais gosto é aquela que já no nosso planeta ele encontra uma raposa. A raposa ensina ao pequeno príncipe o que significa cativar e ser cativado por alguém e como isso muda tudo a nossa volta. Como nunca mais o mundo será igual porque as lembranças se alteram quando gostamos de alguém. É nesse trecho que encontramos a famosa frase: Tu te tornas eternamente responsável por aquele que cativa. O que no fundo é verdade. Um amigo jamais pode ser esquecido e nem o que vivemos de bom com essa pessoa.

          O grande tema do livro é a perda da inocência, à medida que nós vamos crescendo. E não apenas a inocência, mas a capacidade de imaginar, de sentir sem medo, de não ter vergonha de ser de verdade e de amar. É um livro pequeno que dever ser lido e relido várias vezes. A cada vez que eu leio, eu percebo algo que não havia percebido antes.

          Exupéry, à época da segunda guerra, apesar de já ter mais de quarenta anos e sendo mais velho que a maioria dos outros pilotos, também participou coletando informações sobre os inimigos nazistas, já que era bastante experiente. Entretanto, em 31 de julho de 1944, ele partiu de uma base aérea na Córsega, uma ilha no Mediterrâneo, e não retornou à base. Acredita-se que seu avião tenha sido abatido e caído no Mar Mediterrâneo.

          O Pequeno Príncipe já vendeu mais de 200 milhões de exemplares no mundo todo, desde o seu lançamento em 1943, e está entre os cinco livros mais vendidos de todos os tempos. Garanto que vale a pena!

Vídeo-resenha: https://www.youtube.com/watch?v=vq9FvSjPs0k&t

FICHA TÉCNICA

Título Original – Le Petit Prince

Edição Original – 1943

Edição utilizada nessa resenha – 2020

Editora - Faro Editorial

Número de páginas – 112