SEJA IDOSO, MAS NÃO SEJA VELHO

          Vejo Ney Matogrosso cantando maravilhosamente em um show no Central Park em Nova York, aos oitenta anos.  A maneira como ele dança, requebra os quadris, eu nunca seria capaz nem com vinte anos. Depois assisto à sua entrevista em que ele afirma que faz o que faz para se divertir, e me pergunto: Ney é velho? Sua idade diz que sim, mas seu espírito, tenho certeza de que não concorda.

          Ney não me lembra em nada as pessoas carrancudas, inflexíveis, chatas, como os velhos costumam ser. Mas, você deve estar me censurando e dizendo: ora, nem todo velho é chato! Eu sei e concordo. Há pessoas que envelhecem maravilhosamente bem, como minha mãe que morreu aos 92 anos, dona de um incrível bom humor. Mas não estou falando das exceções como Ney Matogrosso ou minha mãe, estou falando da maioria. E, sinto informar, vamos ser honestos, a maioria é bem chata.

          Pode ser apenas um reflexo de uma cultura que não valoriza o velho? Sim. Pode ser. Como se o velho ao saber que vai se tornando um ser que a sociedade não valoriza, se tornasse mais azedo como consequência. Ou uma falta de vontade de ser feliz?  Falta de projeto? Não sei. Não sou psicóloga, apenas observo.

          Muitos velhos são como crianças mimadas. Não cedem em nada. Querem comer no seu horário e apenas as comidas que eles gostam, querem fazer apenas os seus programas, querem que os outros se moldem às suas vontades. E fazem isso, como se tivessem um direito adquirido, como se a idade fosse seu salvo-conduto para fazerem valer o que desejam, e os outros que se moldem.

          Coloco a plaquinha de idoso no para-brisa do meu carro e estaciono na vaga preferencial perto da loja. É claro que gosto disso, mas no fundo sei que a lei foi criada para quem tem problema de mobilidade e não para uma idosa como eu, que levanta vários quilos em uma academia. Assim, se não tiver vaga, não posso reclamar.  Gosto da lei da meia-entrada, gosto da fila menor no supermercado, mas gosto infinitamente mais de olhar pra trás e ver como meu caminho foi bonito e o quanto ainda quero percorrer,  por isso, mesmo que a tentação seja grande, tento não ser chata.

          Às vezes, não consigo, e me vejo ranzinza e, nesses momentos, tenho vergonha de mim mesma. Pretendo viver até os cem anos, se o físico ajudar, mas sei que tenho de cuidar do espírito, por isso estudo, leio, busco o que os jovens estão buscando. Não posso me acomodar e ter medo do novo, e novo não são apenas novas tecnologias, mas novos costumes, novas verdades que são, muitas vezes, contrárias a tudo que acreditei durante uma vida inteira, como, por exemplo, a questão do gênero neutro, tão em evidência, atualmente.

        Entretanto, a meu ver, o principal problema do velho é o mesmo de algumas crianças e de muitos adultos, falta empatia. Falta se colocar no lugar do outro e se perguntar honestamente: será que estou sendo agradável de conviver? E, por favor, de idoso para idoso, se a resposta for não, jamais dê uma de vítima ou de velho, apenas mude!!

São Paulo, 19.07.22