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         O ROMANCE LUMINOSO

          Chega ao Brasil o romance mais famoso do escritor uruguaio Mario Levrero, que morreu em 2004, O Romance Luminoso.  Constituído de duas partes: um enorme diário de quase quinhentas páginas que funciona como um prólogo e depois O Romance Luminoso inacabado. À primeira vista, uma vez que o livro é póstumo, a ideia que se poderia ter é que seus herdeiros juntaram os seus escritos e lhes transformaram em um volume, mas não foi isso que aconteceu.

          De acordo com o crítico argentino Elvio Gandolfo, foi o próprio escritor que entregou ao editor o volume, depois de várias correções e da maneira como ele gostaria de ver publicado.

          Em 2000, Levrero ganhou uma bolsa da Fundação Guggenheim para terminar de escrever o livro O Romance Luminoso que ele havia começado em 1984 e deixado inacabado. Entretanto, tal empreitada se mostrou impossível, de acordo com o que ele mesmo afirma no prefácio, já que o motivo que o havia levado a começar o romance na década de 80 era uma operação e o medo da morte, motivos que já não existiam no ano 2000. Além disso, seu estilo de escrita e também seus pontos de vista tinham se alterado.

         Assim, de agosto de 2000 a junho de 2001, tempo de duração da bolsa, Levrero manteve um diário que deveria servir como um exercício para retomar o hábito da escrita diária, mas que acabou se tornando o ponto central da obra e que fala justamente do difícil processo que um escritor atravessa para finalizar um romance inacabado. Some-se a isso o fato de que Levrero tinha uma vida bastante desregrada sendo incapaz de estabelecer uma rotina de trabalho por muito tempo. Além disso, ele era viciado em programas e jogos de computador e em pornografia o que lhe roubava muito tempo do seu ofício e o fazia trocar a noite pelo dia. Por fim, o escritor ainda tomava muitos remédios para a depressão e tinha medo de sair à rua sozinho.

          O diário é bastante longo e repetitivo. Fatos triviais aparecem inúmeras vezes, quase da mesma maneira. O que nos leva a pensar que talvez tenha sido essa a intenção do autor, já que ele poderia, se quisesse, ter cortado muitas dessas repetições e tornado a leitura mais ágil. Acredito que Levrero queria mostrar como o cotidiano do escritor é despido de glamour, como muitas vezes seus leitores imaginam, e feito de batalhas diárias que requerem disciplina e organização, já que um escritor não bate ponto e não tem um chefe para prestar contas. Além disso, os pequenos afazeres como fazer compras no supermercado, trocar o ar condicionado e a limpeza da cozinha anotados com frequência no diário dão materialidade humana ao escritor.

       A leitura do diário não é uma leitura fácil. Ás vezes, chega a ser monótona e requer do leitor mais dedicação do que um outro tipo de livro. Há, claro, algumas passagens muito interessantes e frases que trazem ideias luminosas, como diria o próprio Levrero.

       Quanto ao romance, durante todo o tempo da bolsa, Levrero só foi capaz de escrever um sexto capítulo que, ao mesmo tempo que dá seguimento aos cinco iniciais escritos em 1984, tão pouco lhes dá conclusão. Chamado de A Primeira Comunhão, o escritor prefere que o mesmo seja tido como um texto independente que tem a ver com O Romance Luminoso.

      Mesmo não estando em forma de diário, também O Romance Luminoso é autobiográfico com fatos marcantes da vida do escritor e da busca por transformá-los em literatura. Para Levrero, há um Daemon, um espírito errático que o leva a escrever, e buscar seu Daemon, às vezes, se torna uma tarefa árdua.

      Muitos críticos costumam chamar a obra de Levrero de inclassificável. Impossível de ser definida em um único gênero literário. Sou obrigada a concordar com eles.

Vídeo-resenha: https://youtu.be/4fCV3aW7gEA

FICHA TÉCNICA

 

Título Original – La Novela Luminosa

Edição Original – 2005

Edição utilizada nessa resenha: 2018

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 645

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