O SEGUNDO OLHAR

 

               Cada vez diminui mais o número de pessoas que leem poesia. Eu acredito que isso é uma consequência da maneira como somos ensinados a ler um livro de poesia. Não há a necessária diferenciação. O livro de poemas é lido como se fosse um livro de prosa, seja romance, contos ou crônicas. Não é. É diferente e sua leitura também tem de ser diferente. Um poema é um texto curto e se o poeta for bom ele consegue dizer coisas que nos tocam profundamente naquele pequeno texto.  Assim, eu acredito que o melhor jeito de ler um livro de poemas é aceitar que você pode levar meses para concluí-lo. Parece uma contradição? Textos curtos que levam meses para serem lidos? Sim. Isso mesmo. E não há qualquer problema.

             Escolha um bom livro de poemas e o deixe em algum lugar em que você costuma ler. Pode ser ao lado da cama ou na sua mesa de trabalho. E, a cada dia, leia apenas um ou dois poemas. Leia e releia várias vezes até compreender tudo que o poeta quis passar naquele pequeno texto. Acho que esse é o segredo. A poesia é feita para nos acompanhar sempre, mas sem a obrigação como em um romance de terminar rapidamente para não perder o fio da meada. Os poemas são estanques podem ser lidos em ordem ou não.

               O Segundo Olhar é uma nova antologia de poemas de Mario Quintana. Ela foi organizada por João Carrascoza e o interessante é que o critério não foi escolher poemas de uma determinada época ou de um determinado tema, como por exemplo, todos os poemas que se relacionem com mulher ou com paixão. Não. Primeiro há poemas antigos desde 1940 até 1990, um pouco antes do poeta morrer. Quintana morreu em 1994, aos 88 anos. Então qual foi o critério escolhido? O lirismo. Quintana havia escrito um poema chamado “Epígrafe para uma antologia lírica” e esse é o ponto de partida. A partir daí foi traçada uma linha com um poema chamado Da Arte de Escrever, outro com o título de Dedicatória, outro Projeto de Prefácio, outro Da Paginação, outro Da Sabedoria dos livros, Tristeza de escrever, Os Poemas e, em seguida, o poema As Coisas, em que Quintana fala que deve haver sempre um segundo olhar sobre tudo e então é sob esse conselho que o livro se desenvolve. Houve um bom trabalho de garimpo em toda obra de Quintana, o que conseguiu fazer com que os poemas seguissem uma linha harmoniosa.

                Quintana é um poeta que dizia que gostava de escrever poemas curtos, muitos de apenas um verso. Seus versos são sobre coisas simples, utilizando uma linguagem simples e, mesmo assim, ele consegue o mais difícil que é escrever algo profundo que nos toca imensamente. Às vezes, em um único verso ele consegue ser surpreendente como no poema Os Intermediários em que diz que nunca se acertou bem com padres, críticos e canudinhos de refresco. Ele busca a ideia do padre intermediário entre ele e Deus, a do crítico, intermediário entre ele e o leitor e termina, surpreendentemente, com algo simples do nosso dia a dia que é o canudinho, que também não deixa de ser um intermediário. A explicação não está no verso, mas no título.

           O livro nos convida a derramar um segundo olhar sobre tudo o que existe e descobrir coisas escondidas. Assim, uma letra K pode ser não apenas um K, mas por sua forma também um caminhante, como ensina Quintana, simplesmente.

          O Segundo Olhar traz ainda um dos mais belos poemas de Quintana que é Emergência em que ele mostra a importância da poesia na vida das pessoas, pois um poema abre uma janela e quem faz um poema salva um afogado.

Vídeo-resenha: https://youtu.be/XKycQpAD3Cs

FICHA TÉCNICA

Título Original – O Segundo Olhar

Edição Original – 2018

Edição utilizada nessa resenha – 2018

Editora Alfaguara – Rio de Janeiro

Número de páginas – 140