ORGULHO E PRECONCEITO

        Acredito ser interessante comparar a autora inglesa Jane Austen com outra escritora inglesa Emily Brontë.  As duas não são realmente contemporâneas. Jane Austen, autora de Orgulho e Preconceito é mais velha. Nasceu no final do século XVII e morreu em 1817, um ano antes de Emily Brontë, autora do Morro dos Ventos Uivantes, nascer. Entretanto, talvez sejam os nomes mais importantes da literatura inglesa daquela época produzida por mulheres, ambas, filhas de religiosos.

         Particularmente, apesar de ser um clássico, não gosto muito de O Morro dos Ventos Uivantes. Acho uma história exagerada. Diferentemente, de Orgulho e Preconceito de Jane Austen. Creio que a última autora consegue um retrato bem fiel dos costumes e mentalidade da sociedade daquela época sem deixar de ser romântica, coisa que a Emily Brontë, apesar de ser mais nova, não conseguiu.

          E do que se trata Orgulho e Preconceito?

          É a história das cinco irmãs Bennet que, como era costume naquela época, não herdariam os bens do pai quando esse morresse porque não eram homens. Pela lei inglesa, as propriedades eram passadas apenas para o sexo masculino. Assim, o que era do pai das cinco irmãs passaria a um sobrinho e as jovens ficariam desassistidas se não fizessem um bom casamento, já que as mulheres daquela época, a não ser que fossem muito pobres, não trabalhavam.

      A personagem principal, Elizabeth, a segunda das irmãs Bennet, é uma personagem inteligente, bem-humorada e que consegue enxergar as mazelas de uma sociedade puritana e preconceituosa. Sua irmã mais velha se apaixona por um jovem rico, Charles Bingley, mas as irmãs de Charles fazem de tudo para atrapalhar o romance. Elizabeth enxerga isso muito bem, e enxerga também o orgulho de outro jovem rico que se interessa por ela mesma, Mr Darcy, mas, durante muito tempo, não percebe o seu próprio orgulho.

         É desse preconceito e orgulho de classes de que o livro fala. Da dificuldade que observamos até hoje de dois jovens de classes diferentes, um muito rico e o outro apenas remediado, poderem viver um romance e ficarem juntos. Como se o amor só fosse possível entre pessoas da mesma classe social e que ter menos dinheiro significava ser inferior.

        Mais de dois séculos depois, a nossa sociedade ainda se importa tanto com essa desigualdade na hora dos casamentos, mas não se preocupa com a desigualdade no dia a dia, pouco fazendo para alterar essa desigualdade, o que torna o livro ainda muito atual.

              Orgulho e Preconceito tem uma linguagem sensível que apreende a ironia e a falsidade existentes por trás das conversas aparentemente amigáveis dos personagens de classes diferentes. Como se os ricos quisessem passar a imagem de que não ligam de ter amigos ou amores pobres, mas que, por trás, não é bem isso que acontece. 

           O primeiro capítulo também mostra os traços do feminismo nascendo quando o primeiro parágrafo retrata bem a visão apurada da escritora que diz, ironicamente:

“ É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, possuidor de boa fortuna, deve estar necessitado de esposa."

           Ou, no final desse mesmo capítulo, quando o narrador ou a narradora, descreve a senhora Bennet, mãe das cinco irmãs: “tratava-se de uma senhora dotada de inteligência medíocre, pouca cultura e gênio instável. Quando se aborrecia imaginava que estava nervosa. A única preocupação da sua vida era casar as filhas. Seu consolo, fazer visitas e saber novidades.” Mostrando a futilidade da maioria das mulheres daquela época que só tinham por objetivo de vida, fazer um bom casamento com um homem rico.

               Enfim, é uma obra à frente do seu tempo.

          Junto com outro livro chamado Razão e Sensibilidade, Orgulho e Preconceito são os mais importantes de Jane Austen. Já foram reeditados centenas de vezes em quase todo o mundo e já viraram filmes tão populares que estão, inclusive, disponíveis em plataformas de streaming.

 

Vídeo-resenha: https://www.youtube.com/watch?v=bCTL99E11TI

               

FICHA TÉCNICA

Título Original – Pride and Prejudice

Edição Original – 1813

Edição utilizada nessa resenha – 1982

Editora  Abril - São Paulo

Número de páginas – 348