CRÔNICA DA SEMANA

          OS CARENTES

          Sou filha do meio e, por isso mesmo, sou carente. Se você está se perguntando o que uma coisa tem a ver com a outra?? Ora, leitor sem coração... provavelmente, você é o sábio irmão mais velho ou o caçula mimado. Ou pior, é o privilegiado filho único e tem um reino inteiro para governar. Pois bem. Eu não sou nada disso. Sou carente.

           Meu filho diz que sou facinha. Claro!! Todo carente é facinho. Basta um elogio, ou um reles cafuné, e eu me derreto toda. Sou capaz de buscar gelo no Saara para refrescar o ser que sofre com um calorzinho. Não tem gelo no Saara?? Meu caro leitor, hoje você está a fim de me irritar. É uma linguagem figurada. Quer dizer que sou capaz do impossível para agradar. Entendeu??

          O problema do carente e facinho é que ele perde a medida das coisas. Quer tanto agradar que acaba sendo chato. Quer tanto receber um sorrisinho, que parece cachorro com língua pra fora em porta de restaurante.

          Certo. Não dá pra ser assim. Um belo dia resolvi mudar, e fazer tudo que eu devia fazer...(não acho teclas musicais no teclado, mas você se lembra da música, né?)

          Minha primeira resolução para ser mais difícil é... não tenho a menor ideia. Faz décadas que sou fácil. Ninguém me ensinou a ser difícil. Nem que tente não consigo demonstrar indiferença quando algo me agrada e me faz feliz. Será que é tão ruim assim, ser agradecida quando se é um pouquinho amada? Claro que o melhor dos mundos seria pedir mais, mas será que as pessoas têm mais para dar? Ou devemos no contentar com o que recebemos?

          Minha expectativa é baixa. Basta um voto de feliz aniversário, um elogio ao novo corte de cabelo, um abraço meio apertado no reencontro e o meu dia se transforma. Toda vez que esperei mais, acabei recebendo foi um balde de água fria para refrescar a lembrança de que as pessoas dão aquilo que querem ou que acham apropriado e não o que o outro gostaria de receber. Pensando bem, foi por isso mesmo que me tornei facinha. Se não tenho grandes expectativas, não tenho grandes decepções.

         Conformada? Não. Isso é sabedoria de filho do meio que se espremeu a vida inteira pra caber entre as pontas. Exato. De tanto me espremer, acabei cabendo em qualquer lugar e se não caibo, sei exatamente como me espremer mais um pouquinho. Ser filho do meio tinha de ter alguma vantagem.

       Mas e a resolução de mudar?

       Fica para outra encarnação. Com sorte, serei filha única. Por enquanto, só me agrade mais um pouquinho. Eu juro que retribuo à altura e não ponho a língua pra fora.

       

          São Paulo, 28/09/2021