OS VESTÍGIOS DO DIA

 

          Os Vestígios do Dia do escritor Kazuo Ishiguro, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2017, foi publicado em 1989 e é o terceiro romance do escritor nipo-britânico.  Em outro post, falamos de Não me Abandone Jamais que, juntamente com Os Vestígios do Dia são os dois livros mais famosos de Ishiguro. Entretanto, há muitos outros livros de sua autoria que também devem ser lidos. Aliás, nunca se deve ler apenas um livro de um escritor. Para se conhecer minimamente uma obra, pelo menos os três livros mais relevantes devem ser conhecidos. É assim que identificamos o estilo, a marca de um escritor.

           Uma coisa que impressiona na escrita de Kazuo Ishiguro é como ela pode se transformar de um livro para o outro. Em Não me abandone Jamais, a protagonista era também a narradora, e em Os Vestígios do Dia isso se repete, mas Ishiguro é capaz de construir um narrador completamente diferente do outro e, mais do que isso, fazer com que o livro inteiro siga a forma de seu narrador. Explicando melhor. Em Os Vestígios do Dia, o protagonista e também narrador é um mordomo inglês. Então, justamente por ser um personagem formal, detalhista, elegante, a escrita do livro vai adquirir exatamente essa mesma forma, o que é sensacional porque permite que nós leitores entremos de cabeça no universo de Stevens. É esse o nome do personagem principal.

          Isso é tão verdade que em determinado momento do livro, eu me surpreendi achando que a limpeza da prataria também era uma coisa relevante como ela é para o protagonista. Pouquíssimos escritores conseguem realizar algo assim e isso explica porque Kazuo Ishiguro ganhou um Nobel. A forma e o conteúdo têm pesos praticamente iguais em sua obra. Um complementa o outro.

          Voltando ao personagem Stevens, ele não era um mordomo inglês qualquer, mas era considerado um dos melhores na sociedade dos mordomos ingleses. Não podemos esquecer que estamos falando de Inglaterra, onde os mordomos são uma tradição e onde, ainda hoje, em Londres, há uma escola que forma mordomos a peso de ouro para bilionários espalhados pelo mundo.

       Stevens era o responsável por uma grande mansão chamada Darlington Hall que pertencia a um nobre inglês muito influente na política e, por isso mesmo. a mansão era palco de reuniões importantes. Stevens, discreto e eficiente ao extremo era o responsável para que tudo funcionasse com perfeição e chegou a comandar nada menos do que quatorze empregados.

          A história do livro é uma viagem real que Stevens vai fazer pela Inglaterra para trazer de volta para trabalhar na mansão uma antiga governanta. E, enquanto essa viagem real se desenrola, a viagem da memória a acompanha. A memória, ou melhor, a rememoração é uma das marcas importantes da escrita de Ishiguro. O personagem principal vai compondo suas memórias e montando o quebra-cabeça de sua vida. Por isso que mais uma vez, a história passada é mais relevante do que a história presente. O que acontece na vida presente do Stevens é consequência de tudo que ele viveu, aliás, como é para todos nós.

         O eficiente Stevens coloca a sua melhor roupa, seu novo patrão lhe empresta seu carro, um bonito Ford, e se coloca na estrada e, claro, nós junto com ele.

         Os Vestígios do Dia se transformou, em 1993, em um filme sensível com interpretações imperdíveis de Anthony Hopkins e Ema Thompson que também merece ser conhecido.

Vídeo-resenha: https://www.youtube.com/watch?v=SCAudGlCnqs

FICHA TÉCNICA

Título Original: The Remains of de Day

Edição Original: 1989

Edição utilizada nessa resenha: 2016
Editora Companhia das Letras – São Paulo
Número de Páginas: 286