PRAZER DE CANDINHA

        Quem me conhece sabe que estou a um passo de ser Candinha. Principalmente, em um café ou restaurante. Tenho um enorme prazer em saber o que falam os meros desconhecidos que estão nas mesas ao lado. Às vezes, é tanta informação que não consigo nem prestar atenção à conversa na minha própria mesa. Não me orgulho! Sei que pessoas bem educadas não escutam conversas alheias, mas, sinto informar, acho que sou mais curiosa do que bem educada. E depois, tudo é material para a crônica! Se não escuto uma conversinha aqui ou ali, como posso lhe entreter??

           Enfim, para minha felicidade e depois de uma dose de Pfizer, que até parece uma bebida boa, resolvi tomar um café em uma mesa ao ar livre de uma cafeteria. Depois de 15 meses sem esse prazer, parecia uma criança que experimenta um sorvete delicioso que nunca tinha provado. Você deve estar se perguntando: tudo isso por um café? Não, meu caro Watson!! Tudo isso porque depois de tanto tempo, eu estava ouvindo a conversa da mesa ao lado.

        O que me chamou atenção logo de cara na conversa das duas mulheres foram os inúmeros elogios feito a uma moça de nome Carol e que, com certeza, era a futura nora de uma delas. Como falar bem de nora é sempre algo inusitado, meus atentos ouvidos se deslocaram para a mesa ao lado, imediatamente.

            Carol era inteligente, bonita e ainda por cima havia ajudado o futuro marido, incentivando-o, melhorando sua autoestima, o que resultou que o noivo conseguiu, inclusive, arrumar emprego depois de um bom tempo desempregado. A outra mulher que não era a sogra, mas podia ser uma tia ou uma avó(não dá para saber tudo, né?) não parava de repetir a sorte enorme que elas tiveram com a tal Carol.

             Tudo ia muito bem para a Carol, quando a avó-tia resolveu contar à sogra que Carol havia lhe telefonado para lhe pedir ajuda em alguma questão relativa ao casamento. Pronto! A sogra azedou. Como assim? Por que não havia ligado para ela? De repente, do nada, a sogra, que obviamente era a grande organizadora da festa de casamento,  começou a lembrar que Carol costumava não comentar nada sobre se tinha gostado ou não do local, dos arranjos, da comida, por fim, praticamente, de tudo. Carol não participava, não comentava, mas mesmo assim tinha ligado para a outra para pedir ajuda.

           Por mais que a avó-tia tentasse desculpar Carol, o estrago estava feito. Nunca vi uma nora mudar tão rapidamente de princesa encantada para a bruxa que quer roubar o filhinho. Carol virou desleal, autoritária, dominadora e, provavelmente, depois de casada, ainda iria conseguir afastar o marido da família. Nesses momentos, preciso ter muito autocontrole porque fico a um milionésimo de qualquer coisa de vontade de interferir, me metendo na conversa. Afinal, convenhamos, aquela sogra precisava ouvir umas verdades e não seria a atrapalhada da tia-avó que iria dizer. Tomei o último gole de café, respirei fundo e...pedi a conta.

               Até Candinha tem de ter juízo!

               São Paulo, 15/06/2021