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          QUINCAS BORBA

          O personagem Quincas Borba que dá nome ao romance de Machado de Assis não é exclusivo desse livro. Na verdade, sua primeira aparição se deu em outro romance de Machado, Memórias Póstumas de Brás Cubas.

         Joaquim Borba dos Santos, conhecido como Quincas Borba, foi amigo de colégio de Brás Cubas. Era filósofo e criador de uma filosofia, o Humanitismo ou também chamada Humanitas. Talvez de todos os personagens do escritor, Quincas Borba seja um dos mais diferentes, pois não corresponde à imagem de uma pessoa certinha, ajustada à sociedade em que vive, mas era, com certeza, um sábio.

         Quincas Borba vivia em situação precária, completamente sem dinheiro, quando recebe uma grande herança de um tio seu de Barbacena, Minas Gerais. Tudo isso é possível saber lendo Memórias Póstumas, mas, em Quincas Borba, quando o romance começa, o personagem continua rico, entretanto, está doente e logo nas primeiras páginas ele morre, deixando tudo que possui para seu amigo Pedro Rubião de Alvarenga, conhecido como Rubião, um modesto professor que também vivia em Barbacena. A única condição é que Rubião, para fazer jus à herança, tem de cuidar do cachorro de Quincas Borba, que também se chamava Quincas Borba.

          É estranho imaginar que um romance que se chama Quincas Borba não vá cuidar da vida desse personagem, mas é exatamente isso que acontece. A história será sobre a vida nova de Rubião, agora um homem rico, mas que continua sendo bastante ingênuo, mesmo aos 40 anos.

        Quando o livro começa, Rubião já está em sua bonita casa no Botafogo, pensando na vida. Para poder ordenar a história, o narrador diz:

Deixemos Rubião na sala de Botafogo... Vem comigo, leitor, vamos vê-lo, meses antes, à cabeceira de Quincas Borba.

        E o próprio narrador lembra que o Quincas Borba é o mesmo de Memórias Póstumas de Brás Cubas, e ele então convida o leitor que ainda não leu o romance, a lê-lo. E aqui eu quero chamar sua atenção para esse narrador que conversa o tempo todo com o leitor ou leitora. Essa é uma característica da obra de Machado de Assis, uma influência grande que ele traz de sua profissão de cronista. Na crônica é muito comum o escritor conversar com o leitor e Machado faz isso nas suas inúmeras crônicas e também nos seus romances.

        O narrador relembra que Quincas Borba havia se apaixonado por uma moça chama Maria da Piedade que acabou morrendo e seu irmão, Rubião, passa então a ser amigo do filósofo. Quando Quincas Borba ficou doente, foi Rubião quem cuidou dele.

       Quincas Borba encarava a morte de forma muito tranquila porque pela sua filosofia, que ele mesmo criou, a Humanitas, não havia morte porque a supressão de uma vida é a condição de sobrevivência de outra. Isso é importante. Ele dá o exemplo de um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas não são suficientes para as duas tribos que precisam comer para adquirir forças para transpor a montanha e chegar aos campos onde há mais alimentos. Se as duas tribos dividirem pacificamente as batatas, não será o suficiente para nenhuma das duas e ambas morrerão de inanição. Assim, elas guerreiam entre si. Quincas Borba diz que, nesse caso, a guerra é necessária. É desse exemplo que sai uma frase do personagem Quincas Borba, mas que se torna famosa entre a obra de Machado:

- Ao vencedor, as batatas!

        Depois da morte de Quincas Borba, Rubião vai ao Rio de Janeiro, à época, capital do Brasil, e conhece no trem o casal Cristiano de Almeida e Palha e sua esposa, Sofia, e conta a eles que havia recebido uma grande herança. Palha, que é um homem bastante esperto e aproveitador, imediatamente se interessa pela riqueza do outro e se aproxima então de Rubião, convidando-o para sua casa no Rio.

       Rubião é como um caipira ingênuo na Corte. Todo mundo se aproveita um pouco dele quando sabe que ele tem dinheiro. Há sempre muita gente para comer em sua casa nova. Todo mundo sempre quer que ele ajude com dinheiro em vários negócios, principalmente, o Palha que tinha várias dívidas e se aproxima de Rubião justamente porque quer tirar proveito. Ele propõe sociedade a Rubião que aceita e se torna também um administrador do dinheiro do outro, uma espécie de contador de Rubião.

       Rubião nem desconfia das intenções de Palha e como está terrivelmente apaixonado por Sofia, gosta de ter a maior proximidade possível com o casal. Uma noite, ao jardim, Rubião flerta abertamente com Sofia que depois conta indignada o que aconteceu para o marido. Entretanto, Palha não fica bravo com a situação, pelo contrário, pede para Sofia, inclusive, aceitar o flerte, pois deve dinheiro a Rubião.

       Sofia é uma personagem estranha. O narrador dizia que ela tinha uma alma confusa. É muito bonita, mas fútil. Gosta de ser cortejada e costuma encorajar a corte que os homens lhe fazem. Mas não é uma personagem complexa, que tenha muitos dilemas. Aceita a corte de Rubião, mas gostaria mesmo é que um jovem chamado Carlos Maria, muito bonito, a cortejasse, o que não acontece. Carlos Maria vai, inclusive, se casar com a prima de Sofia, Maria Benedicta.

         Na minha edição há um prólogo do Machado à terceira edição, em que o escritor diz que as duas primeiras edições acabaram muito rápido e em que ele comenta que um amigo sugeriu que ele fizesse uma trilogia que começaria com Memórias Postumas, depois Quincas Borba e o terceiro romance deveria ser sobre Sofia. Machado diz que chegou mesmo a pensar sobre isso, mas acabou desistindo, pois a personagem Sofia estava no romance Quincas Borba por inteiro e ele não queria se repetir.

        Como era de se esperar de alguém que gaste muito, Rubião vai perdendo sua riqueza. Palha que já está bem de vida, dá um jeito de terminar a sociedade com ele, que, à medida que vai ficando mais pobre, e sendo rejeitado pela Sofia, praticamente uma obsessão em sua vida, vai também sendo acometido por delírios, por ataques de loucura. Imagina-se um imperador, comandando um grande exército. Quando os delírios se intensificam, acaba sendo colocado por Palha em uma casa de saúde. Palha e Sofia não se importavam mais com o antigo amigo. Todas as atenções eram agora para a decoração de seu novo palacete no Botafogo porque eles ficaram muito bem de vida, graças ao Rubião.

         Depois de alguns meses internado, Rubião foi melhorando. Um dia pede ao Palha que lhe visite e, durante a visita, solicita-lhe algum dinheiro para dar de lembrança aos enfermeiros. Dias depois, foge juntamente com o cachorro Quincas Borba da casa de saúde para Barbacena.

        Assim que Rubião chega em sua antiga cidade, completamente perdido e delirante, fica na chuva sem saber direito para onde ir e a primeira frase que lhe vem à mente é:

-Ao vencedor as Batatas!

        Acolhido por uma antiga comadre tem uma febre muito forte e poucos dias depois morre, ainda achando que era o imperador. Seu cão, Quincas Borba, também teve o mesmo fim, amanhecendo morto, apenas três dias depois da morte de seu dono.

      O narrador então nos pergunta se é pela morte do cachorro narrada ali, que o livro se chama Quincas Borba, mas o narrador não responde e manda que quem quiser que chore os dois mortos ou ria, pois no fundo é a mesma coisa.

       A história do Rubião é a Humanitas acontecendo na prática, mais uma vez. O fato de Quincas Borba morrer é que possibilitou ao Rubião mudar de vida que, por sua vez, possibilitou arrumar a vida do Palha e da Sofia.

     Importante: é um romance da fase realista, ou seja, romances que tentam mostrar a realidade exatamente como ela é, sem o verniz que existia no romantismo. Por isso conseguimos ver a futilidade de Sofia, a maldade de Palha e de outros que se aproveitam de Rubião.

       O estilo de Machado nesse livro segue as suas principais características. Ele conversa com o leitor ou leitora, influência do Machado cronista que fazia isso com frequência. Dá até explicações ao leitor porque escreveu algo de uma determinada forma. É uma escrita que além de conversar com seu próprio romance anterior, Memórias Póstumas, também traz muitas citações de outras obras. Machado fale de Kant, de Dumas, cita trechos de Hamlet de Shakespeare, cita frases em latim, em francês, o que demonstra seu conhecimento e erudição. Além, claro, do narrador irônico, uma das principais características de Machado de Assis.

Vídeo-resenha: https://www.youtube.com/watch?v=umf4tkZvD7Y

FICHA TÉCNICA

Título Original – Quincas Borba

Edição Original – 1891

Edição utilizada nessa resenha: 1950

Editora: W.M. Jackson - Rio de Janeiro

Páginas: 413