ROMANCEIRO DA
INCONFIDÊNCIA

          Romanceiro da Inconfidência da poetisa carioca Cecília Meireles é uma de suas principais obras. Teoricamente, Meireles faria parte dos modernistas, entretanto, a escritora construiu sua obra um pouco à margem de escolas, sendo o ecletismo uma característica importante de seus escritos. Sua arte poética filia-se de forma forte, inclusive, ao lirismo luso-brasileiro.

           Inicialmente, é preciso esclarecer o que é um romanceiro. Conhecemos o romance que é uma história, uma narrativa em prosa, ou seja, um texto corrido. Já o romanceiro também conta uma história, mas é uma narrativa construída em forma de poemas. O livro inteiro é de poemas. Essa é uma diferenciação atual.

             Entretanto, no seu livro, a cada poema, a autora vai chamar de Romance. E por que ela vai chamar de romance se não é uma narrativa em prosa? Porque antigamente não havia essa diferenciação. A autora vai seguir uma tradição da Península Ibérica, originada em Portugal e Espanha, na idade média, onde eles tinham por hábito chamar de romance tanto uma história em prosa como em verso. Mas era muito mais comum em verso e também era bastante comum que fossem orais, ou seja, mais recitados do que escritos. Outra característica é que, normalmente, naquela época, os romanceiros se referiam a histórias reais.

         A própria Cecília disse que escolheu Romanceiro porque  "teria a vantagem de ser narrativo e lírico; de entremear a possível linguagem da época à dos nossos dias; de, não podendo reconstituir inteiramente as cenas, também não as deformar inteiramente."

       São ao todo 85 poemas denominados Romances, mais cinco poemas chamados Fala, quatro chamados Cenário, um denominado Serenata e outro Retrato. Os Cenários e as Falas delimitam as fases do livro. Como o próprio nome já diz, o livro vai contar a história da Inconfidência Mineira que tem o seu grande herói em Tiradentes, mas vai começar com a origem das Minas Gerais.

         A escritora não vai contar a história simplesmente. É o olhar de Cecília Meireles, completamente diferenciado, sobre uma história verdadeira.

        Algumas edições trazem a fala da própria Cecília Meireles contando porque e como escreveu o livro. Ela fez essa fala no primeiro Festival de Inverno de Ouro Preto em 1955, ou seja, dois anos depois da publicação do livro. Nessa palestra, a poetisa conta que havia ido a Ouro Preto, em 1940, como jornalista para fazer uma matéria sobre a Semana Santa, mas que foi impactada por todo o cenário, os casarões, as igrejas e que assombrada pelos fantasmas de tantos personagens famosos que construíram a história daquele lugar e que se expandiu para todo o país. Assim, sentia a necessidade de escrever essa história que lhe custou vários anos de pesquisa e escrita.

         Ao contrário de outros livros de poemas em que os poemas podem ser lidos de forma independente, meu conselho é que você siga a ordem estipulada pela autora para entender a história que, obviamente, tem uma cronologia.

       Primeiro de tudo, nós podemos identificar partes bem definidas, que foram demarcadas pela própria autora. A cada nova parte, ela traz um novo poema chamado Cenário, ou seja, o cenário muda, ou então uma Fala, que também é outro tipo de poema. Alguns críticos fazem outras divisões desse livro de forma diferente, mas  acredito em seguir as fases que foram delimitadas pela própria autora. A poetisa demarcou as fases com poemas chamados Cenários ou Falas no meio dos Romances.

          A primeira parte começa pela descoberta do ouro, o trabalho puxado, o ouro indo todo embora para Portugal, a violência e termina com maus presságios. Além de entremear com figuras conhecidas como Chica da Silva que também ganha um poema só seu.

           A segunda parte começa com a morte simbólica do País da Arcádia. Arcádia foi uma cidade da Grécia, mas com o passar do tempo, passou a designar um lugar imaginário, perfeito, como se fosse a Terra do Ouro, exatamente o Brasil daquela época. Nessa segunda parte então, esse país idílico desaparece e nascem as ideias, o movimento dos inconfidentes, acontece a traição de Joaquim Silvério dos Reis, as prisões e o enforcamento do outro Joaquim, Joaquim José da Silva Xavier, mais conhecido como Tiradentes.

         A terceira parte não começa com um Cenário, mas com a Fala aos Pusilânimes. na qual a autora está se referindo aos covardes, à imputação que foi feita a Claudio Manuel da Costa que participou da Inconfidência, mas foi acusado de trair os amigos. Entretanto,  no poema, a própria Cecília diz não acreditar em sua traição:

Nem creio que houvesse dito

O que lhe fora imputado

Sempre há um malvado que escreva

O que dite outro malvado

E por baixo ponha o nome

Que se quer ver acusado...

        Assim os covardes na visão da poetisa são aqueles que acusaram Claudio Manuel da Costa, ou que delataram Tiradentes como Inácio Pamplona. Essa terceira parte é marcada por poemas que falam dos traidores, das prisões, dos bens dos inconfidentes que foram arrematados, enfim, das consequências todas da Inconfidência e termina com a morte de Tiradentes, num poema belíssimo chamado De Uma Pedra Crisólita em que Cecília relata a prisão e morte de Tiradentes.

A poetisa começa o poema com os seguintes versos:

Dizem que saiu dessa casa

Com uma crisólita na mão...

          Ela está se referindo à hora que Tiradentes foi preso, e a escritora vai usar essa pedra, a crisólita, porque a mesma tem toda uma simbologia como pedra da honestidade, da sinceridade. E ainda vai dizer que a pedra ficou sem lapidação, se referindo, claro, ao movimento que fracassou e também ao próprio Tiradentes.

         Já a quarta parte é dominada pela tristeza relatada no novo poema Cenário, que traz o jardim abandonado do poeta Tomás Antônio Gonzaga que não foi morto como Tiradentes, mas preso e depois exilado. Essa parte do Romanceiro fala da partida do poeta, do seu exílio em Moçambique e, finalmente, do seu casamento na África com Juliana Mascarenhas. Gonzaga usava o pseudônimo de Dirceu. E ficou famoso não só por ter sido inconfidente, mas como poeta. Seu poema Marília de Dirceu em homenagem a sua amada Maria Doroteia, que ficou sozinha aqui no Brasil, até hoje é lido e estudado.

        A quinta parte é interessante porque fala das mulheres que, de alguma forma, sofreram as consequências da Inconfidência. Traz uma figura pouco conhecida que é da poetisa mineira Bárbara Heliodora que, por ser casada com o inconfidente Alvarenga Peixoto, também tomou parte no movimento, mesmo que de uma forma menos ativa. Seu marido também foi preso e deportado para a África, onde faleceu. Há também um poema dedicado à Maria Ifigênia, filha de Bárbara e Alvarenga, e que morreu com apenas quinze anos numa queda de cavalo. Barbara Heliodora ficou conhecida como a Heroína da Inconfidência Mineira. Nessa parte, Cecilia termina com o poema que não leva nome de Romance, mas chama-se Retrato de Marília em Antônio Dias, e que, ao retratar a Marília de Dirceu, na visão da poetisa, permite que todas as mulheres de todos os tempos contemplem essa mulher que morreu sozinha.

         A sexta e última parte, a menor, é focada na rainha Maria I, conhecida como a louca, que perdoou todos os inconfidentes, menos Tiradentes. No antepenúltimo poema, Cecilia usa a figura do cavalo que aparece em vários poemas ao longo do livro como se o tempo todo, os cavalos presenciassem os fatos. E termina com um poema intitulado O Testamento de Marília, referindo-se, claro, novamente à Marilia de Dirceu, que sem ser inconfidente, teve o sofrimento de ver seu amor interrompido.

         O último poema não é um Romance, mas um daqueles chamados Fala. Os poemas designados como Fala são importantes porque são aqueles em que mais a poetisa se coloca. Começa com a Fala Inicial, em seguida há a Fala à Antiga Vila Rica, que era o nome antigo de Ouro Preto, depois a Fala aos Pusilânimes, que são os covardes, depois a Fala à Comarca do Rio das Mortes e por fim, a última, Fala  aos Inconfidentes Mortos. Essa última fala funciona como um poema síntese, uma homenagem da poetisa àqueles homens que tiveram a coragem de fazer a Inconfidência Mineira.

        Então, resumindo: há os 85 romances, há os cenários e há as falas. Todos são poemas, mas a autora faz essa diferenciação. Na palestra à que eu me referi no começo, a própria Cecilia diz que como poetisa foi uma observadora dos fatos e que usou tipos diferentes na impressão para designar um momento ou outro. As Falas, os Cenários vêm sempre em itálico, diferente dos Romances. Entretanto, há em vários Romances, no meio dos versos, a reflexão da autora , que também, nesse caso, vem em itálico.

        Quanto à estrutura o que é preciso saber? A autora vai usar dados históricos e combiná-los com muitos elementos que ela própria inventou. Vai usar em seus poemas, relatos, monólogos e diálogos. Vai usar planos temporais e espaciais diferentes, ou seja, nem todos os poemas se referem ao mesmo tempo histórico, nem aos mesmos lugares.

        O tempo é ainda mais variado. O tempo medieval em que os romanceiros eram muito utilizados, que foi a forma escolhida pela poetisa, o tempo em que o movimento inconfidente aconteceu, o tempo em que Cecília Meireles escreve e até o tempo em que nós, leitores, lemos o livro. São vários tempos diferentes.

     Importante é que no Romanceio da Inconfidência há a ação do que está acontecendo e também a reflexão da autora. As duas coisas têm a mesma importância.

        Quanto aos versos, há poemas com versos mais curtos, outros mais longos com ou sem rimas, com rimas regulares e irregulares, o que demonstra não seguir uma única métrica.  

Vídeo–resenha: https://www.youtube.com/watch?v=bUmOJjVGFL4

FICHA TÉCNICA

Título Original – Romanceiro da Inconfidência

Edição Original – 1953

Edição utilizada nessa resenha – 1989

Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro

Número de páginas – 280