ROMEU E JULIETA

          Eu quero falar de Romeu e Julieta de William Shakespeare, fazendo uma abordagem diferente. Como é uma história que todo mundo conhece, é mais interessante contextualizar e levantar aspectos importantes do texto.

      A pergunta que todo mundo se faz é Por que uma história de amor entre dois adolescentes, escrita no século XVI, se torna uma obra imortal, sendo, juntamente com Hamlet, uma das duas peças mais encenadas no mundo todo?

         Primeiro é preciso ressaltar que a história não foi originalmente escrita por Shakespeare. O dramaturgo inglês usou uma história que já existia para escrever seu texto para teatro. Essa história era um conto italiano, traduzido para o inglês por Arthur Brooke, em 1562, anos antes de Shakespeare escrever sua peça de teatro. Esse conto se chamava  A Trágica História de Romeu e Julieta.

          Claro que Shakespeare fez algumas modificações, especialmente, aumentando ainda mais a dramaticidade que já existia na história.

            Vamos relembrar que Julieta era da família dos Capuletos e Romeu era da família dos Montecchios. As duas famílias viviam em Verona, na Itália, em guerra constante. Até os criados de uma família e da outra eram inimigos de morte. Cansado dessas brigas sem fim que atrapalhavam a vida de toda cidade, o príncipe de Verona declarou que se houvesse qualquer novo atentado ao sossego e à paz da cidade, o responsável iria ser punido com a morte.

          Entretanto, audacioso como quase todo adolescente, Romeu resolve ir ao baile de máscara dos Capuletos, pensando que, se estava de máscara, não seria reconhecido. Lá, ele vê Julieta e imediatamente se interessa por ela, o que também aconteceu com Julieta em relação a Romeu. Entretanto, Teobaldo Capuleto, primo de Julieta, reconhece Romeu, mas não faz nada naquele momento para não estragar o baile.

            Mais tarde, os dois apaixonados se  falam, se enamoram, e resolvem se casar escondido. Para isso contam com a ajuda do Frei Lourenço que os casa em segredo. Quando está voltando para casa, Romeu encontra seus amigos brigando com Teobaldo que tinha ido tirar satisfação do Romeu por ter ido ao baile de máscara dos Capuletos. Os rapazes brigam, Romeu não quer revidar por que agora Teobaldo é parente de sua esposa, mas Teobaldo mata Mercúcio, o amigo de Romeu, que em seguida mata Teobaldo para vingar a morte do amigo.

           Quando tudo isso acontece, o príncipe de Verona não manda matar Romeu como havia prometido, mas o bane da cidade. Julieta quando sabe fica imensamente triste e a sua família pensa que é pela morte do primo e resolvem casá-la com um parente do príncipe. Julieta desesperada vai procurar Frei Lourenço que lhe dá um remédio que parecerá que ela morreu. O plano é que a família de Julieta vai levar seu corpo para o mausoléu da família e Frei Lourenço enviará uma carta para Romeu contando o ocorrido. Assim, ele deverá encontrar com ela no Mausoléu, quando então poderão fugir.

          Entretanto, a carta do Frei Lourenço não chegou a Romeu, que soube da morte de Julieta por outras vias. Desesperado, o jovem então compra um veneno e vai para o mausoléu onde se mata. Julieta acorda, vê seu amado morto e se mata também. As famílias quando descobrem o que aconteceu, resolvem selar um pacto de paz.

           Enfim, essa é a história que, à primeira vista, parece um dramalhão, mas se olharmos direito ela tem muitos elementos que fizeram que ela ficasse tão famosa. Primeiro, a idade dos personagens principais. Eles são jovens, são bonitos, são ricos e teriam toda a vida pela frente. Então dois jovens que morrem cedo e, principalmente, morrem por amor já era um tema que encantava qualquer pessoa. É impossível não sentirmos simpatia pelos protagonistas, que foram vítimas de suas famílias poderosas.

           Depois, o drama do amor impossível, a ideia da proibição. Tudo que é proibido, as pessoas tendem a desejar ainda mais. Principalmente, um amor proibido. Havia nos jovens a coragem para enfrentar suas famílias e lutar contra essa proibição que era absolutamente sem sentido. E aí entra também uma crítica às convenções sociais e à sede de poder de famílias ricas como os Capuletos e os Montecchios.

       Quanto à estrutura, Shakespeare que ainda estava no início de sua carreira como dramaturgo quando escreveu Romeu e Julieta, usa de ferramentas que não eram muito comuns para a época, como alterar o gênero teatral. Até metade da peça, ela é uma comédia e somente depois com a morte de Mercúcio, que se transforma em um drama. Além disso, ao não ser morto pelo príncipe, mas apenas banido da cidade e com a ajuda do Frei Lourenço, a plateia ainda tem esperança que o amor vença no final, provocando suspense. Essa alternância, comédia, drama, suspense, permite que o público não se canse e mantém sua atenção.

         A famosa cena do balcão era também inovadora porque era a protagonista Julieta, declarando seu amor por Romeu, mesmo sem saber que ele estava escutando, sem qualquer subterfúgio, o que não era comum para uma mocinha da época.

          Já o final é completamente inusitado. Ninguém poderia imaginar que os dois jovens morreriam. Até hoje, quando um protagonista morre em qualquer história, a não ser que ele já estivesse doente, é uma grande surpresa que transforma a história em uma história incomum, o que lhe dá mais status e popularidade.

         O amor trágico, desmedido, universal de Romeu e Julieta, vai se transformar no arquétipo do amor ideal que morre sem ser contaminado pelas desavenças de qualquer casal na convivência diária.

          Todos esses elementos juntos, mais a franca expansão do teatro na Inglaterra que era muito apoiado e até protegido pela rainha Elisabeth I, o que lhe deu grande visibilidade, explicam o sucesso de mais de cinco séculos de Romeu e Julieta que já foi encenada em praticamente, todos os países, em todas as línguas, e que também se tornou sucesso no cinema.

Vídeo-resenha: https://www.youtube.com/watch?v=FWYsKal6G-s

               

FICHA TÉCNICA

Título Original – The Tragedy of Romeo and Juliet

Edição Original – 1591

Edição utilizada nessa resenha – 1979

Editora  Abril - São Paulo

Número de páginas – 116