TERRA SONÂMBULA

          Terra Sonâmbula, de 1992, é o primeiro romance do escritor moçambicano Mia Couto e não é apenas seu mais importante romance, mas também é considerado um dos doze livros mais relevantes da literatura africana do século XX.

          Autor de uma obra bastante extensa, Terra Sonâmbula é um romance mais complexo do que os outros livros de Mia Couto e tem uma carpintaria textual meticulosa. É como se cada parágrafo tivesse sido escrito e reescrito inúmeras vezes e de forma extremamente poética. Para apreciar a leitura em tudo que ela oferece, é necessário se acostumar a esse tipo de narrativa e levar em conta que o português de Moçambique não é igual ao do Brasil e nem ao de Portugal.

           Mia Couto usa comparações, analogias, figuras de linguagem sofisticadas. São muitos os exemplos.  Há um momento na história em que os personagens estão andando por um caminho estreito. Ele não diz simplesmente que o caminho é estreito, mas fala que o caminho é tão estreito que mesmo duas serpentes não podiam namorar. Ele vai buscar a figura da serpente que também é estreita, delgada, que anda de forma sinuosa e lembra um caminho para falar do mesmo. Além disso, ainda não é apenas uma serpente, mas duas em uma situação de namoro. E se o leitor for ver, o fato do caminho ser estreito não era importante para o percurso da história, mas, mesmo assim o escritor moçambicano está  buscando, constantemente, uma sofisticação a cada trecho da escrita.

        Além dessa narrativa extremamente sofisticada, a história também é muito interessante porque vai falar da terra Moçambique, um país devastado por guerras por mais de trinta anos. Primeiro, o país passou por uma guerra pela independência de Portugal e depois, uma guerra civil. No prefácio, há a explicação do porquê da terra ser sonâmbula : "Se dizia daquela terra que era sonâmbula. Porque enquanto os homens dormiam, a terra se movia espaços e tempos afora." E a razão para isso era: "Como a terra não gostava de sofrer ela se movia procurando sonhos das pessoas. A terra era uma costureira de sonhos. "Mais uma vez, como é comum na obra de Mia Couto, a terra também é um personagem.

         A história começa com o menino Muidinga que perdeu a memória e o seu protetor, o velho Tuahir, andando a esmo por uma estrada deserta em busca dos pais de Muidinga. Quando eles se deparam com um ônibus queimado que foi abandonado, eles resolvem ficar nesse ônibus já que não têm casa e no ônibus, pelo menos, ficam abrigados do tempo. Ali, Muidinga encontra vários cadernos escritos à mão que compõem o diário de outro menino chamado Kindzu.

          Todos os dias, Muidinga lê em voz alta um trecho dos cadernos. E, através das histórias de Kindzu, Muidinga e Tuahir conseguem suportar melhor a vida em uma terra sem esperança, onde não há casa e nem comida. Mia Couto usa de fantasia e surrealismo para compor, na verdade, duas histórias que correm paralelas, a de Muidinga e a de Kindzu.

          Existe um trecho em que o pai de Kindzu pergunta o que ele está escrevendo. E Kindzu responde que não sabe. Que vai escrevendo conforme vai sonhando e que talvez algum dia alguém possa ler os seus cadernos. Quando então seu pai diz que é bom ensinar alguém a sonhar. Essa é a beleza do significado da literatura que Mia Couto propõe. Essa possibilidade de viajar para uma realidade mais amena, menos sofrida em que se possa sonhar. A literatura ensina a sonhar.

        Em Terra Sonâmbula, também há a possibilidade de conhecer mais sobre a cultura de Moçambique, através de cantos, lendas, rituais e crenças que falam de muitos mitos africanos.

         Terra Sonâmbula é um livro para se ler muitas vezes e apreender toda a riqueza da narrativa.

Vídeo-resenha: https://www.youtube.com/watch?v=YB_EpdglgAA

FICHA TÉCNICA

Título Original – Terra Sonâmbula

Edição Original – 1992

Edição utilizada nessa resenha – 2007

Editora Companhia da Letras – São Paulo

Número de páginas – 208