TUDO CULPA DO PEPINO

          - É de pequeno que se torce o pepino! A avó, muito séria, repete insistentemente.

             A mãe, no seu papel, ouvindo a matriarca, capricha na bronca.

        Eu olho para a criança que a tudo assiste, percebendo a gravidade do momento, mas morrendo de vontade de dar risada. Aliás, somos duas. Cúmplice, ela me olha e eu percebo o projeto de riso no canto da boca, e tenho de virar o rosto para não cair na gargalhada.

             Com certeza, no meu caso, nessa altura do campeonato, nem uma tonelada de pepino!

            Não sei qual foi a arte que o pequeno ser praticou, mas o próprio nome já diz, é “arte”, não é maldade. Como educadora, sei que a bronca é imprescindível, mas como observadora, sorrio por dentro, imaginando qual teria sido a ousadia infantil. O que nem mãe nem vó percebem e que meus olhos treinados enxergam é que ele está representando. É esperto. Sabe que o momento não é para rebater, mas tenho certeza de que não está dando a mínima para a bronca e que sim, vai repetir a “arte”.

          Poucas coisas nessa vida me dão mais prazer do que observar pessoas e mais do que tudo, observar crianças, quando ainda não foram contaminadas por normas e regras e agem por instinto, por vontade, ignorando os limites que, com a idade, serão bem demarcados para o bem do convívio em sociedade.

          Entretanto, o que a maioria não entende é que em toda caixa há pepinos de muitos tipos e alguns, por mais que se esforce, jamais se deixarão torcer. Alguns desafiarão a sociedade e, infelizmente, lhe farão muito mal, mas outros serão pepinos não torcidos que fazem a graça do mundo. São artistas, cientistas, observadores do não óbvio, desbravadores, pepinos que pensam e agem fora da caixinha e levam o mundo para a frente.

        Não como pepino, mas admiro profundamente um pepino de boa qualidade, torcido ou não.

 

 São Paulo

 05.07.22