UM DIA, UM GATO

           E o gato pulou o muro.

          Da janela do segundo andar, sem que ele me visse, eu conseguia acompanhar todos os seus passos. O bicho mais malandro do universo não imaginava que alguém o estava observando, o que me dava um certo poder. Parece bobagem, mas proletariado se alegra com pouco.

          Ele passou pelo gramado sem qualquer interesse. Fui obrigada a concordar que gramados não têm realmente nada de interessante. Verdes contínuos. Chegou à área dos vasos. Temi pelos tomates, manjericões, limões sicilianos... enquanto ele, parado, parecia indeciso, talvez avaliando as diversas possibilidades. O que um gato come? Já estava vendo o estrago em qualquer vaso que ele resolvesse atacar, quando, subitamente, ele se vira, deixando os vasos para trás e tomando outra direção.

         De um salto subiu no balcão de granito da churrasqueira. Era estranho ver o felino de lá pra cá em um balcão que, normalmente, só recebe pratos e talheres. Entretanto, não havia comida ali faz tempo. Pandemia não combina com churrasco.

          O que o gato buscava? Mais um pulo e estava na parte de cima da churrasqueira, aparentemente sondando o terreno. Virou a cabeça para um lado, para o outro. Podia jurar que ele estava verificando se não estava sendo observado. Me escondi um pouco mais, por trás da persiana. E então, o misterioso felino entrou dentro da churrasqueira, se aninhou sobre a grelha, bem no fundo, e sossegou.

          Permaneci muito tempo na janela, esperando a hora que o folgado invasor resolvesse explorar novas paragens, mas nada. Ao que tudo parecia, ele havia escolhido aquele cantinho escuro para dormir.

        Fiquei pensando que era muito estranho. Não era um gato de rua. Devia ter uma casa com uma caminha gostosa esperando por ele em algum lugar. Não havia sentido trocar seu conforto por uma grelha de churrasqueira na casa da vizinha. Mas gatos não são assim tão diferentes de humanos. Às vezes, só desejamos mesmo um canto escuro e sossegado para descansar o corpo e a alma.

          O silêncio era o pulo do gato.

 

          São Paulo, 02/03/2021