VELHOS X JOVENS

        Desde que o mundo é mundo, ou alguém resolveu chamá-lo de mundo, gente mais velha sempre será mais conservadora e gente mais jovem sempre acatará melhor novas ideias. Não precisa ser nenhum filósofo, psicólogo ou cientista social para entender, basta escutar as discussões ou verdadeiras brigas em família.

           Quanto mais velho e com menor convívio com jovens, mais difícil será achar graça naquele cabelo verde, aceitar aquele político “comunista” ou aqueles dois ou duas que resolveram namorar, mesmo sendo do mesmo sexo. É difícil sair da zona de conforto onde tudo tem o seu mesmo lugar há décadas. O novo é arriscado, pode não dar certo, pode não ser seguro.

        Por outro lado, quanto mais jovem, menos paciência para escutar lados opostos, ponderar e escolher com calma porque nem tudo que é antigo é ruim, porque o mundo não vai acabar amanhã, e não é preciso ter tanta pressa assim.

         Mas, o que a maioria esquece é que precisamos de ambos. É desse embate entre velhos e jovens que o mundo avança, mas avança com mais equilíbrio, propondo mudanças que sejam benéficas a toda sociedade. Se não fosse por jovens corajosos, nós, mulheres, ainda não teríamos direito ao voto, a escravidão ainda seria considerada normal e o espartilho não teria saído de moda. Se não fosse por “velhos” experientes, muitas doenças ainda não teriam cura e muitas guerras teriam sido iniciadas por motivos fúteis.

          Minha filha votou em Boulos, seu tio votou em Covas e eu penso que tanto faz quem foi o ganhador. Não creio que teríamos tantas mudanças com um ou outro candidato, por mais que Boulos assustasse meus contemporâneos. Sei que ele não iria comer criancinha e nem tirar minha casa, afinal, que eu saiba, somente bancos tiram as casas das pessoas. Como também sei que Covas vai fazer apenas o que der pra fazer, sempre limitado pelo seu grande partido e os sonhos de Doria pela presidência. Jovens e velhos brigam por políticos que não são tão diferentes assim.

         Enquanto escuto os argumentos apaixonados, às vezes, concordo com os velhos, outras tantas, concordo com os jovens e nenhum dos dois grupos acha que eu possa agir dessa forma. Creem que eu deva lealdade cega a um dos grupos e que essa variedade me coloca em cima do muro. O que ambos não percebem é que nunca fico em cima do muro o tempo todo, mesmo porque é bem estreito. Lá, do alto do muro, eu consigo enxergar o que há de bom e de ruim em cada lado. A visão é ampla e não fica obstruída por “pré conceitos”. Assim, em certas ocasiões, caio pra cá, em outras, caio pra lá.

          A única coisa que jovens e velhos parecem concordar é no desprezo por essa minha ambivalência. Nesse momento, a briga entre eles cessa e ambos brigam comigo. Eu sorrio e saio de lado. Volto pra cima do muro e espero. Vou cair em algum momento. Só espero pra saber, com mais inteligência, onde devo jogar meu colchão.

                  São Paulo, 24/11/2020