VIDA EM PANDEMIA

 

          Depois de meses trancada em casa por causa da pandemia, devo admitir que estou cansada.

          Tenho dito que parece que tiramos toda parte prazerosa da vida e ficamos apenas com a parte chata. Continuamos trabalhando e muito em “home office” e continuamos a fazer o monótono serviço de casa. Entretanto, os encontros, os abraços, as viagens, os passeios... tudo que nos dá prazer nos foi negado.

           Claro que isso era o que deveria ter sido feito. Obviamente, ninguém vai morrer porque não viaja ou não vai a um bar. Não é isso. É apenas porque, de vez em quando, só precisamos mesmo é desabafar. E como é bom desabafar quando todo mundo, literalmente todo mundo, sabe do que estamos falando.

          Em março, quando essa loucura toda começou, ninguém poderia imaginar que a pandemia e o isolamento se estenderiam por tanto tempo. Tudo era novidade. Estávamos ávidos por informação e isso fez com que o tempo até passasse mais rápido. Nunca assisti tanto telejornal e nem li tantos veículos de imprensa como nesse período.  Mas a novidade acabou e agora parece que estamos patinando numa terra escorregadia. Nem levantamos de vez e nem caímos. A vida continua lenta, morosa, em compasso de espera.

            Já pintei as paredes que eu queria pintar. Já arrumei os armários que precisava arrumar. Já cozinhei, plantei, limpei, assisti a dezenas de séries, estudei, decorei e redecorei ambientes, fiz tanta coisa nesses poucos meses que em tempos normais talvez levasse anos para realizar. E agora? Começo um novo romance? Faço um outro curso EAD? Como ocupar um tempo que ainda pode ser imenso?

           Um dia, prometem a vacina para o final do ano. No outro, dizem que é só para o meio do ano que vem. Será? Não sei se fico otimista, pessimista ou se consigo precisar onde está o realismo. Só sei que não fico mais jovem. Que um ano é muito tempo.

         Releio o que escrevi e fico com vergonha. Pare de se lastimar, digo para mim mesma. É um absurdo alguém ficar reclamando quando tantos perderam a vida, tantos perderam seus entes queridos, perderam seus empregos, suas rendas...

          Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima, dizia o poeta popular. Está bem. Obedeço ao poeta e à vida. Olho em volta procurando, procurando. E, de supetão, decido experimentar aquela receita de torta grega que vi em um dos muitos programas culinários que agora fazem parte do meu dia a dia. Ainda bem que comer ainda é muito bom. Então comemos, enquanto esperamos.

 

                                                           São Paulo, 29/09/2020