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CRÔNICA DA SEMANA

A SEU TEMPO

          Tempo de observar o tempo.

          Desde há muito, nunca tive. Tenho agora.

          O pássaro de bico preto pousa de galho e galho, olha pra cá e prá lá. Não sei o que ele busca. Talvez apenas me mostrar o tempo.

         Coado aos pouquinhos, o café vai soltando seu cheiro inconfundível pela casa. Vai devagar. Não é expresso. Não é um trem. É só um prazer que vai invadindo cada sentido. Mostrando o gosto do tempo.

          Com suas pequenas e ainda desajeitadas perninhas, a criança anda lentamente. Para, pega uma flor, uma pedrinha, não cede aos apelos dos adultos que lhe gritam pressa. Olha o vasto mundo em volta e faz seu tempo.

         A minúscula semente da horta cresce suavemente. Um mês, dois meses, três meses... Mostra primeiro sua folhagem verde, enquanto prepara o principal embaixo da terra. Espero. Espero. Até que uma pequena parte laranja desponta. Está tomando jeito e cor de cenoura. A seu tempo.

          Onda que vai e que volta. Infinitas vezes.

          Pano que quara ao sol.

       Secular móvel quebrado de vó que ganha parafuso, lixa, verniz e segue forte para mais um século.

        Tempo para ler um longo livro; para preparar uma receita difícil; para tirar uma nova música ao piano.

       Tempo para jogar conversa fora. Tempo de sentar à janela sem buscar coisa alguma.

         Tempo para pensar, sentir e escrever sobre o tempo.

Brasília 25/08/2026

       

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