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CRÔNICA DA SEMANA

A MULHER MISTERIOSA

          Há alguns anos, eu estava em uma fila na USP, esperando a minha vez para entregar documentos em uma secretaria. De repente, aparece uma mulher, me chama pelo nome, me abraça, diz que está com saudade. Eu olho bem no fundo de mim, procurando qualquer pista para identificar aquela pessoa. Procuro, procuro e não encontro. Ela diz que está tão contente de me encontrar e eu me sinto a pior pessoa do mundo.

         Faço perguntas genéricas como o que ela está fazendo de bom, como vai a vida, e assim por diante, tentando pelo menos identificar de onde pode ser que a conheço. Nada. Nem uma dica. E eu continuo lá sem saber direito o que fazer, até que ela se despede e vai embora.

          Por anos, me censurei por não te sido sincera e ter lhe perguntado diretamente afinal quem era ela.

          Avança o filme.

         Na semana passada, estou no supermercado e a cena se repete. Uma mulher me cumprimenta toda entusiasmada. Não sei quem é a mulher e quase choro quando ela diz que se lembra que a última vez que nos vimos foi na fila da USP. Então era ela? Eu não me lembrava nem mais do seu rosto.

         Enquanto ela fala, fala, fico tentando criar coragem para finalmente perguntar de onde nos conhecemos. Entretanto, a coragem foge correndo quando ela diz que sempre pensa em mim, que sempre me agradece pelo que eu fiz e que “jamais, jamais” se esquecerá de mim.

          Digo um “imagine” assim, sem qualquer brilho. E digo que não tem de me agradecer por coisa alguma.

       Acho que o que bloqueou de vez minha coragem foi o “jamais, jamais” repetido e dito com tanta ênfase, ali, no meio das verduras. Nem imagino a cara que eu deva ter feito, pois o pior foi perceber que agora o mistério era duplo. Quem era a tal mulher e, afinal, o que foi que eu fiz?

          Como da outra vez, ela me abraçou, me beijou e me deixou.

          E eu?

     Eu, provavelmente, vou para o inferno e o diabo vai passar a eternidade me perguntando quem é a tal mulher. Como eu não vou saber responder, ele vai ficar me espetando em ferro quente e rindo da minha desgraça.

        A minha esperança é que se você for a tal mulher e, por acaso, algum dia, ler essa crônica, me escreva, me telefone e me perdoe por não reconhecê-la. Ou, se achar engraçado, continue o mistério para sempre. Eu mereço!

SP 24/03/2026

         

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