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CRÔNICA DA SEMANA

O VIAJANTE

          Invejo profundamente quem consegue dormir em avião. Sou do tipo que fica acordada vendo filme, comendo bobagem, lendo e rezando para que a noite termine logo. Já pensei muito sobre isso. Deve ser algum medo oculto de que o avião caia e eu nem fique sabendo, pois estava dormindo. Já imaginou um espírito que nem sabe que morreu? Vou ficar vagando por aí e atormentando todo mundo que eu conheço. Talvez arrisque até irritar alguns políticos. Gosto dessa ideia.

          À medida que o tempo passa, as pessoas vão desligando suas luzes, deixando de conversar e o pior, um monte de gente começa a roncar. O avião entra em um estranho estado de letargia e sempre me parece que fico vagando entre o real e o sonho. Estar em um escuro dentro e fora, sem meus pés no seguro do chão, como se só eu estivesse atenta ao que acontece, é uma sensação ruim.

       Uma única vez, minha viagem noturna foi muito interessante. Ao meu lado se sentou um homem que era representante de uma grande multinacional que estava presente nos quatros cantos do planeta. Esse representante falava várias línguas e viajava o mundo todo a trabalho. E era um igual. Também não conseguia dormir em aviões.

       A conversa começou como toda conversa de avião: sobre amenidades. Mas, à medida que a noite avançava e o resto do avião dormia profundamente, o tal homem começou a contar das suas muitas viagens, de fatos curiosos de países sobre os quais eu não conhecia quase nada. Sua última viagem tinha sido ao Butão. Devo ter feito uma cara de incrédula, afinal, quem vai ao Butão? Sem dizer nada, ele pegou seu passaporte para que eu visse o carimbo. Nunca vi um passaporte tão carimbado e ele me disse que já era seu quinto passaporte. São Tomé agora podia ouvir sobre o Butão.

          Considerado o país mais isolado do planeta, o Butão é conhecido por priorizar a felicidade de seu povo. E meu viajante desconhecido contou que desde o momento em que colocou os pés no país, ficou surpreendido. Já tinha ouvido falar, mas nunca tinha imaginado a felicidade como um valor tão palpável. Todo mundo à sua volta, parecia dedicado a lhe fazer feliz em sua estada.

         Na hora de fechar a venda, que era enorme, e por isso sua comissão também seria enorme, o comprador responsável lhe perguntou de repente se aquilo que ele estava vendendo deixaria a população do Butão feliz. Era só responder que sim, mas o representante compreendeu que um povo que prioriza o ser ao ter não podia ser enganado. E respondeu que não. Imediatamente a compra foi cancelada.

        Eu fiquei surpresa e lhe perguntei se ele não se arrependeu. Ao que meu viajante respondeu categoricamente que não. E ainda acrescentou que tinha sido um dos melhores momentos da sua vida.

        Imagino que se sua empresa ficou sabendo, tenha perdido o emprego. Mas sempre que viajo de avião ou penso em honestidade, me lembro dele.

SP 14/04/2026

         

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