
Miriam Bevilacqua
Literatura, Comunicação,Educação
CRÔNICA DA SEMANA
O MERGULHO

Não dava para ver a praia, mas não estava tão longe assim. As águas pareciam calmas, confiáveis, um tapete verde encostado à parede azul. Roçando de leve o azul. Desafiando. Um azul. Contínuo e monótono azul.
Um lugar qualquer no meio do nada e de tudo. Um bom lugar como qualquer outro. Segurou a âncora só pra sentir o quanto era pesada. Precisava que fosse assim. Não a arremessou, não teria força para isso. Apenas deixou que ela desaparecesse sob seus olhos, enquanto a corda rolava obediente.
Até que a corda parou. Tentou calcular o quanto para baixo, mas desistiu. Não tinha necessidade.
Colocou o oxigênio nas costas e mergulhou. Mergulhou. Havia se preparado a vida toda. Não importava o que os outros falassem. Era o mergulho. Era o mergulho necessário. Chegou ao fundo tão rápido. Não sabia que o fundo era tão escuro. Acendeu a lanterna acima da testa, mas mesmo assim não conseguia enxergar. Olhou em volta, olhou para cima e para baixo. Nada. Estava sozinho. Sozinho no fundo. Começou a nadar, primeiro bem devagar com medo de esbarrar em algo que não visse, depois com força como um desesperado. Quanto mais nadava, mais ia para o fundo. Um enorme buraco no fundo. A pressão começou a fazer efeito. Ria e parecia desmaiar. Chorava e parecia morrer. Por mais quanto tempo teria oxigênio? Havia esquecido de marcar. O importante sempre fora o mergulho.
Tocou em flores submersas, inesquecíveis, em pedras pontiagudas, inesquecíveis, se arranhou, capotou, caiu e levantou. O ar estava quase no fim. Procurou a âncora. Nem corda, nem âncora. Havia se afastado tanto! Nunca mergulhe sozinho, o professor recomendou. Havia se esquecido. Tinha de subir. O ar sumia cada vez mais rápido. Respirava e sentia sufocar. A subida tinha de ser devagar. A descompressão. Mas o ar estava no fim. Acabou.
Subiu. Não viu barco algum. Só águas turvas, sujas, revoltas. No meio do nada.
SP 17/03/2026