CRÔNICA DA SEMANA

CONTA DE LUZ

        Ele acorda antes do despertador. O quarto ainda está completamente escuro graças a uma persiana blackout de qualidade comprada em outros tempos, mas consegue ver pelo canto da persiana que já é dia. Não quer levantar da cama. Tem certeza de que ainda é cedo, mas o sono já foi varrido pelas preocupações. Pensa nas contas atrasadas, nas inúmeras contas, e quer dormir novamente.

          Há alguns anos, diria que era classe média. Hoje, tem certeza que sua situação financeira não tem classe nenhuma. Sem classe, deselegante como só a pobreza consegue ser.

          Precisa arrumar dinheiro para pagar a conta de luz. Sua mulher vai endoidecer se cortarem a luz. A água é outra preocupação, mas só vence a terceira conta atrasada na próxima semana e eles só cortam depois de três meses de atraso. Sem contar o aluguel vencido, a conta no negativo no banco, prestação daqui e dali. Respira. Ainda tem um respiro, mas a luz... não.

         O que é uma vida sem luz? Sem banho quente? À luz de vela? Nada de carregar o velho celular e nada de internet. Como vai conseguir trabalho se as pessoas não conseguirem contatá-lo e como vai pagar as contas sem trabalho? Parece um círculo vicioso, uma daquelas espirais sem fim em que se cai como na história de Alice no País das Maravilhas, mas sem nenhum coelho para tirar da cartola.

         Poderia ficar eternamente naquele quarto sem luz. Bem escondido. Mas tem aquela maldita fresta de luz dizendo que é dia.

      Repassa mentalmente o que pode vender. Sua adorada coleção de gibi da época de criança já foi há tempos. A bola autografada pelo ídolo de futebol, seu antigo orgulho, também. Não tem mais nada de que possa se desfazer e provavelmente ninguém se interessaria por móveis velhos. Tantos anos de trabalho e não tem nada.

         Na escuridão, tenta descobrir onde, em que pedaço do caminho, deu tudo errado. Não sabe.

        Pensa na irmã. Tem um pouco, não, tem muita vergonha de lhe pedir qualquer coisa, mas ela é sua última esperança. Uma boia em um mar escuro. Manda-lhe uma mensagem. É cedo, mas o tempo urge. Os homens da luz também começam a trabalhar cedo. Ela responde quase que imediatamente.

           Está salvo. Por enquanto, está salvo. Mas o quarto continua escuro.

 

SP 09/08/22