
Miriam Bevilacqua
Literatura, Comunicação,Educação
CRÔNICA DA SEMANA
POBRE IRMÃ MAURÍLIA

Estudei em colégio de freiras dominicanas e tive uma tia freira. Então, as freiras faziam parte da minha vida e, apesar de diferentes, eram iguais.
Até que um dia apareceu uma freira para nos dar aula de história. Seu nome era Irmã Maurília. Vestia o mesmo hábito das dominicanas, mas as semelhanças acabavam por aí. Irmã Maurília era muito mais culta e politizada do que as outras freiras, mesmo que, à época, a gente não compreendesse isso muito bem. Éramos adolescentes e adolescentes não primam por um grande conhecimento em história e política.
Irmã Maurília falava da ditadura militar que estávamos vivendo, do imperialismo americano sobre o Brasil, da fome... para uma classe de meninas que estavam mais preocupadas em dobrar a saia xadrez na cintura para ficar mais curta, ou pensar em qual rapaz estaria esperando ao portão, na hora da saída.
A pobre freira falava para uma turma que realmente não entendia nada e, por isso mesmo, fazíamos cara de paisagem em sua aula. Ela chegava a subir em cima da cadeira para chamar a nossa atenção. E nós ríamos pelo canto da boca, o que a deixava completamente exasperada.
Depois de um ano tentando colocar, sem sucesso, alguma coisa em nossas cabeças, abrir nossos olhos, Irmã Maurília sumiu. Perguntamos por ela, e as outras freiras só sabiam dizer que ela havia viajado. A vida continuou e nunca mais pensei em Irmã Maurília até esses dias.
Hoje, está muito claro para mim e minhas colegas que, ou as outras freiras a esconderam em algum lugar longínquo, ou os militares sumiram com ela. Provavelmente, nunca saberei seu paradeiro real. Minha tia morreu e as freiras que me deram aula também já morreram.
Atualmente, sinto-me como irmã Maurília falando a adolescentes. Não importa o quanto você alerte que o filho está muito mais envolvido com o crime organizado do que o pai; ou que você alerte para o risco de uma nova ditadura, desta vez não militar, e sim ligada ao crime organizado das milícias, as pessoas não se importam. A família de milicianos, que já domina o legislativo, pretende se revezar no poder, dominar o STF e instaurar o que acreditamos seja, o pior cenário que esse país já viveu: ditadura da fome e do crime!!
Aumentar o acesso a armas e balas sem numeração, o que não possibilita a identificação do criminoso, é a proposta do candidato. Só isso bastaria para ninguém honesto votar nesse indivíduo. Porém, muitos eleitores ainda permanecem adolescentes preocupados em trocar de carro, comprar um vestido, ou experimentar o restaurante da moda. E nada mais!!
Pobre Irmã Maurília!!
São Paulo, 20/10/2026