CRÔNICA DA SEMANA

       CRIME ESTÉTICO??

       

 

          Não sou do time que acredita que a forma seja mais importante do que o conteúdo, mas não posso negar que existam pessoas que deviam ser processadas por crime estético.

       Você está quieta em uma cadeira de praia, na areia branquinha, olhando aquele mar, aquele céu, inebriada com tanta beleza, quando, de repente não mais que de repente, passa na sua frente um ser que saiu de casa disposto a chocar o mais bondoso dos olhares. A calça, amarrada na cintura, completamente justa, dois números menores em um corpo que precisa urgentemente fazer um regime, (não por estética, mas por saúde) traz enormes e desconjuntadas flores em um fundo vermelho gritante, por cima de um maiô listrado de todas as cores, portando um enorme chapéu, que meus talentos de escrita não conseguem descrever.

       Não sei se foi essa a intenção, mas o mar e o céu sumiram imediatamente. Sucumbiram frente à tanta desgraça visual. Sei que não é politicamente correto, que cada um se veste como quer, mas o que leva alguém a juntar lé com cré? A, deliberadamente, infringir toda noção de beleza?

         Estudei comunicação a vida toda. Imediatamente vasculho minha percepção e meu cérebro para tentar descobrir o que aquilo comunica. Só pode ser o caos.

          Por mais generosidade que eu tente impor ao meu olhar, ele não me obedece. Insisto. Insisto mais um pouco. Por fim, consigo pensar que talvez a intenção de chocar para ser observada seja uma alternativa plausível. Envergonhadamente, corrigi meus sentimentos. Fiquei com pena. É como a risada escandalosa ou os gritos desnecessários. Na estética, ou melhor, na falta dela, não há sons. A comunicação é visual. O pedido de atenção é mudo.

       Arrependo-me profundamente da ideia de crime estético. Como educadora de olhar treinado para tantas crianças e jovens que não tinham ferramentas emocionais para expressar seu sofrimento, não poderia ter demorado tanto a perceber o óbvio.

          Ela parou no carrinho de sorvete. É minha chance. Aproximo-me com a melhor desculpa do mundo. Nada como puxar conversa, falando das delícias de um sorvete. Sorrio. Ela também. O meu olhar ainda se machuca com tanta cor, mas relevo. Estou com sorte. Ela também gosta de sorvete de doce de leite. Já é um bom começo para uma amizade.

São Paulo, 12/10/2021

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