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CRÔNICA DA SEMANA

SOU ANTIGA

          Meu escritório é antigo. Já era antigo quando foi feito. Quis assim. Sou antiga.

         Pintei de verde escuro como as bibliotecas antigas e onde, desde criança, eu imaginava que grandes escritores escreviam em escrivaninhas de madeira escura, sentados em poltronas de espaldar alto. Ficou perfeito! Pena que o talento não veio, nem com a pintura, nem com a escrivaninha.

          Os móveis do escritório também devem ser do tempo de algum rei. Não entendo nada de móveis e pode ser de qualquer Henrique, do primeiro ao oitavo, ou até mesmo de um imaginário. Quando comprei, achei que combinava com as paredes e criavam um clima literário. Estava certa. O clima está aqui. De novo, só faltou o talento!

    Na estante, “zilhões” de livros. São tantos e tantos que, costumeiramente, não encontro o título que procuro. Às vezes, me convenço que não tenho o tal livro e compro um novo volume, para logo depois encontrar o exemplar antigo. Não sei o que acontece. Posso jurar que tinha procurado direito. Na dúvida, com pena do gasto inútil, coloco a culpa no saci. Meu saci adora ler.

         Nas janelas, tenho pequenos brinquedos vindos de muitos lugares por onde viajei, seja de verdade ou de mentira. Cada brinquedo também tem uma história que, como sua origem, muitas vezes é completamente inventada. O melhor de tudo na minha profissão é que posso mentir à vontade, pois sempre posso dizer que estou criando histórias. E quem não gosta de uma boa história?

     Máscaras, fotos e quadros de diferentes tamanhos e formatos completam o ambiente que é tão sobrecarregado de coisas que morro de preguiça de limpar e nem ouso pedir para minha diarista. Tenho certeza de que ela pediria demissão nem bem eu tivesse acabado de falar. Ela sempre comenta que o escritório é lindo, mas que nunca viu tanto enfeite junto. Já entendi a indireta.

      Todo ano, prometo que vou me desfazer de alguma coisa. E até cumpro a promessa. Presenteio alguém, mudo vários objetos para outros cômodos, mas não sei bem como e nem porque sempre aparecem mais e mais objetos. É como se eles me perseguissem.

         Olho em volta e desisto de lutar contra o inevitável. Afinal, há dias, como hoje, que tudo na minha grande biblioteca me parece mágico e o antigo me aquece a alma. Não mudaria sequer uma poeira de lugar. E escrevo sobre o tempo que amarela as folhas dos livros, desbota os tecidos e quadros, esquece origens, mas inventa novas e surpreendentes histórias.

 

SP 26/05/2026

         

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