CRÔNICA DA SEMANA

          A ÚLTIMA BARREIRA

         Sou obrigada a admitir: tenho um problema com portas. Ou melhor, com a falta delas.

          Levei séculos para me acostumar com a cozinha americana, como se aquele balcãozinho de nada fosse suficiente para isolar o cheiro de comida!! Mas tudo bem. Sou voto vencido na humanidade. Só peço que não me chamem para jantar se o prato principal for peixe frito. Minhas roupas e meu cabelo agradecem comovidos e perfumados.

        Agora estão na moda os lofts. Assim mesmo, em inglês. Ninguém pode me acusar de não ser moderna, apesar de detestar usar termos que encontramos similares em português. Entretanto, ninguém quer chamar de galpão. É capaz de algum dono de loft me processar. Então, vamos aos espaços com nomes chiques.

      Loft nos Estados Unidos são grandes espaços em bairros mais afastados, que anteriormente eram fábricas ou galpões, ganharam uma boa reforma e foram transformados em casas baratas e espaçosas. No Brasil, não é nada disso. Os tais lofts chegam a ter apenas vinte metros quadrados, porém se gabam de estarem em locais privilegiados e, por isso mesmo, custam uma fortuna. Não são galpões, mas apartamentos minúsculos em prédios superlotados, em que a construtora economizou um bom dinheiro em portas.

            E lá fui eu, convidada a conhecer o “loft” de uma amiga.

         Passando a porta da frente, somente a porta do banheiro, no canto, guardava alguma privacidade. O resto era tudo misturado. Sala, cozinha, lavanderia, quarto de dormir.

        Com tudo interligado e grudado, eu conseguia ver da “sala” as panelas sujas da cozinha e da cozinha uma calcinha vermelha em cima de uma pseudocômoda no quarto. Os sapatos, novos e velhos, ficavam embaixo da janela. E a máquina de lavar na cozinha cantava sua melodia despreocupadamente, enquanto tentávamos conversar. O loft teoricamente estava impecável porque receberia visita, mas a visita, eu, infelizmente, não compartilhava dessa opinião.

          Por isso gosto tanto de portas, inclusive, de armários. Nenhuma casa é impecável. Mas as portas escondem a nossa bagunça, além, claro, de garantir um mínimo de privacidade. Gosto, como qualquer pessoa, de vez em quando, de me isolar em um canto para ler, escrever, ou apenas pensar. Como se mora em dois ou mais em um loft? Não sei. E depois de uma discussão? Como ficar amuado em um cantinho se todos os sons, cheiros e perturbações visuais chegam até você?

          Fico lembrando de todas as minhas brigas na adolescência em que, dramaticamente, eu terminava batendo a porta. Como adolescentes podem ser dramáticos em um loft sem portas?

        Saí da visita ao loft tupiniquim um pouco preocupada. O que vai acontecer quando a última resistência, a porta do banheiro, finalmente tombar? Não quero nem imaginar.

            São Paulo, 21/09/2021

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