
Miriam Bevilacqua
Literatura, Comunicação,Educação
CRÔNICA DA SEMANA
A SEU TEMPO

Tempo de observar o tempo.
Desde há muito, nunca tive. Tenho agora.
O pássaro de bico preto pousa de galho e galho, olha pra cá e prá lá. Não sei o que ele busca. Talvez apenas me mostrar o tempo.
Coado aos pouquinhos, o café vai soltando seu cheiro inconfundível pela casa. Vai devagar. Não é expresso. Não é um trem. É só um prazer que vai invadindo cada sentido. Mostrando o gosto do tempo.
Com suas pequenas e ainda desajeitadas perninhas, a criança anda lentamente. Para, pega uma flor, uma pedrinha, não cede aos apelos dos adultos que lhe gritam pressa. Olha o vasto mundo em volta e faz seu tempo.
A minúscula semente da horta cresce suavemente. Um mês, dois meses, três meses... Mostra primeiro sua folhagem verde, enquanto prepara o principal embaixo da terra. Espero. Espero. Até que uma pequena parte laranja desponta. Está tomando jeito e cor de cenoura. A seu tempo.
Onda que vai e que volta. Infinitas vezes.
Pano que quara ao sol.
Secular móvel quebrado de vó que ganha parafuso, lixa, verniz e segue forte para mais um século.
Tempo para ler um longo livro; para preparar uma receita difícil; para tirar uma nova música ao piano.
Tempo para jogar conversa fora. Tempo de sentar à janela sem buscar coisa alguma.
Tempo para pensar, sentir e escrever sobre o tempo.
Brasília 25/08/2026