
Miriam Bevilacqua
Literatura, Comunicação,Educação
CRÔNICA DA SEMANA
NA ERA DOS JETSONS

Olho a montanha de roupa suja pra lavar e penso na matéria que havia acabado de ler. Uma empresa chinesa mandou para a casa de cem de seus funcionários um robô doméstico que lava, passa, cozinha e arruma a cama, entre outras tarefas. É para testes e aperfeiçoamento, antes de serem colocado à venda no mercado. E eu me lembro da Rosie, a empregada robô dos Jetsons, um dos meus desenhos preferidos.
Cresci sonhando com todas aquelas inovações que o desenho trazia e fico impressionada quando percebo que quase tudo, hoje em dia, já foi inventado. Mesmo que ainda estejamos bem longe do ano de 2062 que é quando as histórias do desenho se passam.
Na época dos Jetsons tudo é resolvido ao apertar de um botão. Há esteiras rolantes em todos os lugares, carros voadores que se transformam em maletas e jantares inteiros que saem de uma máquina em forma de pílula. Talvez não goste de jantar uma pílula, e prefira os sintetizadores de comida que aparecem em Jornada nas Estrelas, mas não posso deixar de reconhecer que ambos são práticos.
A chamada de vídeo de George Jetson levando bronca de seu chefe, o senhor Spacely, era o mais encantador para mim. Sonhava em um dia fazer chamadas de vídeo como aquela e que hoje são tão comuns. Para George não havia como se esconder daquele patrão sempre nervoso com as trapalhadas de George que, mesmo tendo basicamente de apenas apertar um único botão por algumas horas, três dias por semana, vivia estressado e se queixava constantemente de fadiga no trabalho. Ah, se George visse essa pilha de roupas sujas!
Ainda não temos carros voadores, mas carros dirigidos por computadores já são muito comuns nos Estados Unidos e sei que algum dia os robôs domésticos chegarão por aqui. Já decidi que o meu ganhará um avental e um batom vermelho e se chamará Rosie.
Uma coisa só me preocupa. Embora o desenho tenha acertado em tantos avanços tecnológicos que são hoje uma realidade, ele errou feio na promessa do tempo livre. A premissa de Os Jetsons era de que a tecnologia nos daria tanto tempo livre que trabalharíamos pouquíssimas horas por semana. Não foi bem isso o que aconteceu. E ainda tem uma enorme parcela da população que briga para que o trabalhador não tenha sequer o final de semana livre. Tenho a impressão de que mesmo que deixemos de fazer os trabalhos mais pesados, estaremos cada vez mais conectados e trabalhando o tempo todo.
Olho novamente para a roupa e vou pondo peça por peça na máquina. Talvez deva ficar feliz apenas com a máquina de lavar. Ainda consigo tempo para ler e escrever. A internet e a IA algum dia vão me vigiar até nesses momentos e sabe-se lá se vão querer me deixar esse tempo livre. Tenho um pouco de medo!
SP 02/06/2026