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CRÔNICA DA SEMANA

PASSOU

          Olhe em volta. Não é só você que está envelhecendo, mas também, tudo que o rodeia. Seus amigos, seus móveis, sua casa, seus livros e até as palavras de sua infância. Não sei se isso é bom ou ruim. É quase um envelhecimento coletivo, uma aceitação silenciosa daquilo que é inevitável.

        Reparo no sofá cor de vinho de minha sala que um dia esteve na moda e penso que preciso chamar o tapeceiro para mudar urgentemente o tecido, mas será que é só o tecido? E o formato? Não está antigo também? A sala toda não tem cheiro de casa de vó? Nem sabia que cheiros envelheciam, pois é, envelhecem.

         A sorveteira, que eu comprei em um arroubo e que um dia foi tão moderna, e tão branca, hoje está amarelada, mesmo sendo tão pouco usada. Não é uma questão de uso. É uma questão de tempo. Não importa se você se esconde na sombra, o tempo sempre lhe alcança. E as rugas também.

         Mesmo durante uma conversa ingênua, o tempo se faz presente. Falo que gosto de tomar sol no quintal e a moça de seus vinte anos me olha surpresa. Imediatamente, entendo. Ela sabe o que é quintal. Mas quem fala quintal hoje em dia? Uma de tantas palavras envelhecidas, de pele flácida que me acompanham.

       Por mais que se estude diariamente, se atualize, principalmente tecnologicamente, alguma coisa nos escapa. Não sei direito como e nem sei bem o que seja, mas percebo. Assim que ouvi falar em Inteligência Artificial, já há vários anos, corri para fazer um curso e desde que ela é acessível a utilizo, mas, mesmo assim, parece um uso forçado, que não é natural, como se essa nova tecnologia não me pertencesse. Sei que é uma grande bobagem, mas me sinto assim em relação a muitas coisas. Principalmente, à moda. Qual o vestido certo para uma pessoa mais velha? Há um guarda-roupa correto? Ainda posso usar biquíni?

         Até as nossas opiniões envelhecem. Quando digo o que penso para pessoas próximas, eu me escuto repetindo.  Não há qualquer novidade. Elas já me ouviram falando aquilo, exatamente aquilo, da mesma forma, dezenas de vezes. Talvez por isso que os sinais de enfado sejam tão evidentes. Inclusive, o meu.

        Sou uma otimista de carteirinha e sei que esse quase desânimo não vai durar muito. É só uma constatação que o tempo passou. Chega até a ser bonito na sua longa e antiquada melancolia.

SP 05/05/2026

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